Órfão convida desconhecidos para o casamento na China, e milhares aparecem com presentes
Xu Chenghong, de 24 anos, esperava encher duas ou três mesas numa aldeia de Yunnan; vieram carros de dez províncias, 40 cozinheiros voluntários e um bolo de 2,5 metros

Na manhã de 31 de outubro de 2026, a estrada de terra que leva à aldeia de Yunfeng, no condado de Yiliang, província de Yunnan, no sudoeste da China, ficou congestionada por cerca de um quilômetro. Carros com placas de mais de dez províncias (Yunnan, Sichuan, Chongqing, Guizhou, Guangdong, Fujian, Zhejiang) paravam onde dava. Todos iam ao mesmo lugar: o casamento de Xu Chenghong, um jovem de 24 anos que, seis dias antes, havia gravado um vídeo em frente a um muro de barro meio desabado pedindo a desconhecidos que fossem à sua festa, porque não tinha família para encher o salão.
O convite
Xu perdeu o pai aos 3 anos. Dois anos depois, a mãe se casou de novo, e ele e o irmão mais velho ficaram com a avó, que também morreu quando ele ainda era criança, segundo o site de notícias Mothership, de Singapura, que reconstituiu a história a partir da imprensa chinesa. Largou a escola cedo e viveu de bicos, entre entregas e obras, até juntar mais de 160 mil yuans para se casar com a namorada, Luo Chuichui, da província vizinha de Guizhou.

Em 25 de outubro, ele publicou no Douyin, a versão chinesa do TikTok, onde é conhecido como Xiao Xiao Xu, um vídeo curto: contou que era órfão, que o casamento seria no dia 31 e que quem quisesse aparecer para dar uma força seria bem-vindo. Segundo a Mothership, ele imaginava que, com sorte, 10 ou 20 pessoas da região responderiam, o que daria duas ou três mesas, nas contas que fez à imprensa chinesa.
Ninguém chegou de mãos vazias
Em dois dias, ainda antes da festa, quase 200 pessoas já tinham passado pela casa dele, contou Xu ao site chinês Jiupai News. “Ninguém veio de mãos vazias”, disse. Chegaram geladeiras e aquecedores, um porco inteiro e gente oferecendo trabalho de graça: cozinheiros, decoradores, fotógrafos, maquiadores.
No dia do casamento, a cena superou qualquer previsão. A emissora China Blue News, da província de Zhejiang, falou em mais de 10 mil pessoas; outros veículos, mais cautelosos, disseram apenas “milhares”. A família tinha preparado 300 mesas, depois 400, e mesmo assim não coube todo mundo: o banquete virou um bufê, servido por mais de 40 cozinheiros voluntários em mais de 30 panelas, das 11 da manhã às 7 da noite, segundo as reportagens reunidas pelo portal Sina. Os ingredientes também foram doados: porcos, bois, carneiros, galinhas, um caminhão de maçãs, arroz, farinha e óleo. Um confeiteiro de Shenyang, no extremo nordeste do país, viajou com um bolo de dez andares e 2,5 metros de altura que levou dois dias e duas noites para ficar pronto.
O cortejo de carros, organizado por admiradores, foi puxado por um Rolls-Royce vindo de Chongqing, enfeitado com rosas vermelhas, e seguido por um Maybach de Sichuan, segundo a imprensa chinesa e o site AsiaOne, de Singapura. Na véspera, 30 de outubro, cerca de 10 mil pessoas já dançavam em volta de uma fogueira na aldeia. A cerimônia precisou ser transferida para um espaço público maior, e as autoridades locais ajudaram no controle da multidão, do trânsito e da segurança dos alimentos, segundo a AsiaOne.
Nervoso, mas emocionado
O noivo passou a semana entre a alegria e o susto. Ao jornal Hongxing News, disse ter se sentido aflito ao ver a aldeia encher, como se tivesse causado uma confusão enorme. À TV de Guizhou, na véspera, resumiu que estava “nervoso, mas muito emocionado”. O irmão mais velho, que recebia os convidados, disse à imprensa chinesa que seu único medo era não conseguir dar comida boa a quem tinha vindo de tão longe. A noiva contou que os dois se aproximaram quando ela sofreu um acidente de carro e ele a acompanhou desde o início.
A história dominou as redes chinesas por uma semana, ganhou verbete na Baidu Baike, a enciclopédia on-line do país, e entre 31 de outubro e 1º de novembro chegou aos jornais da Malásia, de Singapura, do Vietnã, da Índia e do Quênia.
Há algo nessa aldeia de Yunnan que a Bíblia descreve há dois mil anos: desconhecidos que se tornam família à mesa. Quem foi a Yunfeng não ganhou nada com isso. Levou porco, maçã, panela e tempo, e voltou para casa com a lembrança de ter sido, por um dia, o parente que faltava a um rapaz. “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos” (Hebreus 13:2).
Com informações de Mothership e AsiaOne.



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