Cogumelos verdes nunca vistos: ciência descreve 4 espécies novas no Cristalino, em MT
Fungos foram coletados em trilhas de floresta em Alta Floresta e Novo Mundo e descritos na revista Phytotaxa; dois deles só são conhecidos no ponto exato onde foram achados

Um cogumelo inteiramente verde, do chapéu ao pé, com a borda branca e franjada. Outro, também verde, cujo chapéu se rasga em forma de estrela quando amadurece. Um terceiro com mais de 10 centímetros de altura e escamas marrons. E um quarto de tons que vão do roxo ao rosa. As quatro espécies de fungos eram desconhecidas da ciência até 2026 e foram encontradas no norte de Mato Grosso, nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino, na porção sul da Amazônia.
A descrição das quatro espécies, todas do gênero Hygrocybe, foi publicada em 11 de agosto de 2026 na revista científica Phytotaxa, uma das principais publicações do mundo dedicadas a novos nomes de plantas e fungos. O trabalho é liderado pela pesquisadora Juli Simon Cardoso, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e tem coautores do Brasil, dos Estados Unidos e do Canadá, segundo a revista. A notícia foi divulgada no Brasil pelo site HiperNotícias, de Mato Grosso, em 1º de novembro.
Tudo começou com fotos no Facebook
A descoberta não nasceu dentro de um laboratório. De acordo com o HiperNotícias, a alemã Susanne Sourell, parataxonomista (especialista em reconhecer espécies no campo, sem vínculo com universidade), visitava a região do Cristalino todos os anos e publicava fotos dos fungos que encontrava no grupo “Cogumelos do Brasil”, no Facebook. Quem via as imagens repetia a mesma coisa: nunca tinha visto aquilo. Ao descobrir que Juli Simon trabalhava justamente com o gênero Hygrocybe, Susanne procurou a pesquisadora, e a parceria deu origem ao estudo.
As coletas foram feitas entre 2018 e 2019, em trilhas de floresta de terra firme nos municípios de Alta Floresta e Novo Mundo. A área das reservas fica ao lado do Parque Estadual Cristalino e se conecta a outras áreas protegidas e a terras indígenas, formando um bloco de mata que ajuda a conter o avanço do chamado Arco do Desmatamento. Para Juli Simon, segundo o HiperNotícias, trata-se de uma das regiões mais importantes para a conservação na Amazônia meridional. “Pesquisei em muitos lugares e nunca vi tanto cogumelo quanto lá”, disse a pesquisadora ao site.

Como se prova que uma espécie é nova
Para confirmar que os quatro fungos eram mesmo espécies diferentes de tudo o que já se conhecia, os cientistas seguiram dois caminhos. O primeiro foi a descrição morfológica: medir e detalhar o cogumelo e as suas estruturas microscópicas, como os esporos. O segundo foi a análise do DNA. Um pedaço do material genético de cada fungo foi comparado ao de espécies parecidas; quando o resultado é muito semelhante, é a mesma espécie, e quando não é, pode ser algo novo. Hoje, explica a pesquisadora, não se publica uma espécie nova de fungo sem esse exame.
Os nomes escolhidos contam um pouco da história de cada um. A Hygrocybe cristalinoensis, toda verde, homenageia as reservas e o rio Cristalino; foi encontrada na trilha do Francisco, em 2019. A Hygrocybe viridilacerata junta as palavras latinas para “verde” e “rasgada”, por causa do chapéu que se abre em estrela; também é da trilha do Francisco, de 2018. A Hygrocybe pegleri, de pé longo e chapéu com escamas amarronzadas, homenageia o micólogo David N. Pegler. E a Hygrocybe vinaceosquamulosa, de chapéu escamoso entre o arroxeado e o rosado, tem o nome formado por “vinho” e “com escamas” em latim. As duas últimas foram achadas na trilha da Castanheira, em 2019.
Segundo o estudo, duas das quatro espécies, a cristalinoensis e a vinaceosquamulosa, são conhecidas apenas no ponto exato onde foram coletadas. É esse tipo de distribuição restrita que faz de uma área prioridade para a conservação: se a mata some, a espécie pode sumir junto antes mesmo de ser estudada.
Os fungos que sustentam a floresta
Os fungos estão entre os seres vivos menos conhecidos do planeta. De acordo com o HiperNotícias, apenas cerca de 5% das espécies de fungos existentes têm registro científico. E eles são essenciais para a floresta: decompõem folhas e troncos caídos, guardam carbono no solo e se associam às raízes da maioria das plantas, ajudando-as a absorver nutrientes. Conservar os fungos, dizem os pesquisadores, é conservar a mata e os animais que vivem nela.
O trabalho faz parte do Projeto Fungos do Cristalino, uma parceria da Fundação Ecológica Cristalino (FEC), do Laboratório de Micologia da UFSC e da própria Susanne Sourell, com bolsas do CNPq e da CAPES. A fundação oferece hospedagem, alimentação e guias locais aos cientistas, um apoio que, segundo Juli Simon, é difícil de conseguir no Brasil, onde muitas vezes o pesquisador paga do próprio bolso para fazer ciência.
Para quem olha a criação com olhos de fé, há algo de belo em saber que, numa trilha de Mato Grosso, pequenos cogumelos verdes existiam há muito tempo sem que ninguém soubesse o nome deles. A Bíblia diz, em Salmos 104:24: “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas.” A cada nova espécie descrita, a ciência confirma, do seu jeito, o tamanho dessa riqueza.
Com informações de HiperNotícias e Phytotaxa.



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