Curiosidades01/11/2026

Fortaleza cananeia do tempo dos Juízes reabre para visitantes no sul de Israel

Erguida há cerca de 3.200 anos, a Fortaleza de Gal'on tinha torres nos quatro cantos e vigiava a estrada entre o litoral e as colinas de Judá; agora tem trilha acessível

Fortaleza cananeia do tempo dos Juízes reabre para visitantes no sul de Israel
Foto: reprodução / The Jerusalem Post

Uma fortaleza erguida há cerca de 3.200 anos, na época em que a Bíblia situa o livro dos Juízes, voltou a receber visitantes no sul de Israel. A Fortaleza de Gal’on, construída pelos cananeus no século 12 antes de Cristo, foi reinaugurada em 29 de outubro, depois de uma obra de conservação feita pelo Fundo Nacional Judaico (KKL-JNF) em parceria com a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA). O sítio fica no meio da Floresta de Guvrin, na Sefelá de Judá, a região de colinas baixas entre a planície do litoral e as montanhas de Judá, perto do kibutz Gal On.

O que torna a descoberta interessante é o momento histórico. Segundo os arqueólogos que a escavaram, a construção foi erguida justamente quando dois novos povos entravam em cena na terra de Canaã: os israelitas e os filisteus.

Uma fortaleza no cruzamento de três povos

A fortaleza foi descoberta nas escavações de 2018 e 2019, conduzidas pelos arqueólogos Saar Ganor e Itamar Weissbein, da Autoridade de Antiguidades de Israel. Para eles, o mais provável é que tenha sido construída para proteger os habitantes cananeus da região de ataques de fora, possivelmente dos filisteus.

Em declaração reproduzida pelo jornal The Jerusalem Post, Ganor e Weissbein explicam que, no início do século 12 a.C., a terra de Canaã ainda era governada pelos egípcios, e seus moradores eram súditos do Egito. Nessa época, apareceram na região os israelitas e os filisteus, o que levou a uma série de disputas sangrentas por território. A fortaleza foi erguida num ponto estratégico, com vista para a estrada principal que ligava a planície do litoral à Sefelá de Judá, e seria parte de uma tentativa cananeia ou egípcia de lidar com a nova situação. “A Fortaleza de Gal’on oferece um vislumbre da realidade geopolítica descrita no livro dos Juízes, em que cananeus, israelitas e filisteus lutavam entre si”, afirmam os pesquisadores.

De fato, o livro dos Juízes começa com as tribos de Israel lutando contra os cananeus pela terra e, mais adiante, narra os confrontos com os filisteus, como na história de Sansão. Os arqueólogos não dizem que a fortaleza esteve numa batalha citada na Bíblia; o que dizem é que ela mostra, em pedra, o cenário de conflito que o texto bíblico descreve para aquele período.

Ruínas de Tel Laquis, outra cidade antiga da Sefelá de Judá, a mesma região de colinas onde fica a Fortaleza de Gal'on
Ruínas de Tel Laquis, outra cidade antiga da Sefelá de Judá, a mesma região de colinas onde fica a Fortaleza de Gal'on Foto: Wilson44691 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Como era a construção

A fortaleza tem o formato de um quadrado de cerca de 18 por 18 metros, com uma torre de vigia em cada canto. A soleira da entrada foi talhada numa única pedra, que pesa cerca de 3 toneladas. Dentro, um pátio central era coberto por lajes de pedra e tinha colunas no meio. Dos dois lados do pátio ficavam os cômodos usados como moradia e depósito.

Foi nesses cômodos que os arqueólogos encontraram milhares de fragmentos de cerâmica, e alguns vasos chegaram inteiros até os nossos dias. Os pesquisadores acreditam que parte dessas peças era usada no culto aos deuses locais, lembrança do ambiente de idolatria que o livro dos Juízes tanto menciona entre os povos da terra.

Vídeo · YouTube
Vídeo da Autoridade de Antiguidades de Israel mostra a Fortaleza de Gal'on reaberta ao públicoVídeo: Israel Antiquities Authority Official Channel / YouTube

Da escavação à trilha com placas

Segundo o Jerusalem Post, o KKL-JNF investiu cerca de 400 mil shekels (a moeda de Israel) na recuperação do sítio. As paredes receberam uma camada protetora que se mistura à paisagem, os cômodos foram realçados para que o visitante entenda a planta do lugar, e toda a estrutura ficou visível. Ao redor, foram feitos estacionamento, uma nova estrada de acesso, área de piquenique e placas explicativas, com vagas e um caminho acessíveis para pessoas com deficiência.

Ami Shahar, vice-diretor de conservação da Autoridade de Antiguidades, resumiu a ideia por trás da obra: para a instituição, a arqueologia não termina quando as ruínas são descobertas; é igualmente importante garantir que os sítios escavados sejam preservados por muitos anos, para que o público continue a visitá-los. Eyal Ostrinsky, presidente do KKL-JNF, disse que preservar os lugares históricos faz parte da responsabilidade de passar a história daquela terra às próximas gerações.

Para quem chega, o resultado é um caminho entre coníferas, árvores de folhas largas e arbustos mediterrâneos até um pátio de pedra onde, há três milênios, sentinelas nas torres vigiavam a estrada que subia do litoral.

Muralhas de pedra e um refúgio que não cai

Quem lê o livro dos Juízes encontra um tempo de insegurança, em que cada povo erguia muros para se defender do vizinho. As torres de Gal’on ficaram em pé por 3.200 anos, mas os que as construíram, e os deuses a quem levavam ofertas nos vasos de barro, se foram. O salmista, que viveu nessa mesma terra séculos depois, apontou para uma proteção diferente: “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refugio” (Salmos 18:2). Diante de ruínas tão antigas, é um bom lembrete de onde está a segurança que não envelhece.

Com informações de The Jerusalem Post e UA.NEWS.

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