Curiosidades29/10/2026

Cientistas recriam o vidro romano que muda de verde para vermelho, 1.600 anos depois

Pesquisadora de Sheffield descobriu como os antigos artesãos faziam a Taça de Licurgo mudar de cor só com materiais da época, e um artista já usou o vidro numa escultura

Cientistas recriam o vidro romano que muda de verde para vermelho, 1.600 anos depois
Foto: Vassil / Wikimedia Commons (CC0)

Sob a luz comum, ela parece uma peça de jade, verde e opaca. Basta acender uma luz por trás e a mesma taça fica vermelha como sangue. A Taça de Licurgo, feita por artesãos romanos no século 4 e guardada no Museu Britânico, em Londres, desde 1958, intriga cientistas há décadas. Agora, uma equipe da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, anunciou ter descoberto como reproduzir o efeito usando apenas matérias-primas que os romanos tinham à mão. A novidade foi publicada com exclusividade pelo jornal britânico The Guardian em 25 de outubro de 2026 e logo ganhou espaço na revista Smithsonian, no site Gizmodo e em portais de boas notícias.

Uma taça que conta uma história

Segundo a Smithsonian, a taça é decorada com uma cena da mitologia grega ligada ao universo da Ilíada, de Homero: o deus do vinho, Dioniso, castiga Licurgo, rei da Trácia que se opunha ao seu culto, prendendo-o em ramos de videira. Mas o que faz da peça uma raridade não é o desenho, e sim o vidro. Ele é do tipo chamado dicroico, que muda de cor conforme a luz é refletida ou atravessa o material.

A Taça de Licurgo, do século 4, exposta no Museu Britânico, em Londres
A Taça de Licurgo, do século 4, exposta no Museu Britânico, em Londres Foto: Vassil / Wikimedia Commons (CC0)

A explicação já era conhecida em teoria. Os romanos teriam misturado ao vidro partículas minúsculas de ouro e de prata, chamadas nanopartículas, muito menores que o comprimento de onda da luz visível. A responsável pelo trabalho, Lisa Hollands, especialista técnica em vidro da universidade, explicou ao Guardian que, quando a luz atravessa a peça, essas partículas barram o azul e o verde e deixam passar apenas vermelhos e alaranjados. Quando a luz bate na superfície e é refletida, elas espalham a luz, e o vidro aparece verde e opaco.

Tentativa, erro e até açúcar

Saber o princípio, porém, não bastava. Hollands contou ao Gizmodo que aceitou o desafio sabendo que poderia não dar certo, porque não era só colocar nanopartículas compradas prontas dentro do vidro. Primeiro, ela se juntou à arqueóloga Caroline Jackson, especialista em vidro romano da mesma universidade, para entender os materiais da época e recriar um vidro de base parecido com o romano.

Depois vieram muitos testes. De acordo com a Smithsonian, Hollands experimentou diferentes tipos de forno, níveis de oxigênio e ingredientes, inclusive açúcar, até chegar a uma receita que produzisse o efeito de forma consistente e repetida, apenas com o que estava disponível para os artesãos romanos. “Para mim, é mágica”, disse ela ao Guardian.

O processo revelou como a cor é sensível. Ian Freestone, professor emérito de materiais arqueológicos da University College London, contou ao jornal que, se o vidro ficava numa posição diferente dentro do forno, a cor saía diferente. Para ele, isso sugere que os romanos tinham grande dificuldade de controlar o resultado e, no caso da Taça de Licurgo, acertaram em cheio. Freestone afirmou ainda que já se produziu vidro dicroico nos anos 1960, mas que o de Hollands é mais ambicioso e preciso, com cores mais próximas das da taça original.

A Taça de Licurgo vista de frente, com as figuras em relevo
A Taça de Licurgo vista de frente, com as figuras em relevo Foto: Chappsnet / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Da bancada para a escultura

Com a receita em mãos, os pesquisadores convidaram o artista britânico Elliot Walker para criar uma obra com o novo vidro. A escultura se inspira no mito de Licurgo e no Atlas Farnese, estátua romana do século 2 em que o titã Atlas sustenta o globo celeste; na versão de Walker, o globo dá lugar a uma taça. Trabalhar com vidro feito a partir de receitas antigas, segundo o artista, permite imaginar como os vidreiros do passado lidavam com o material: “é como apertar a mão deles”.

Segundo a Smithsonian, a peça será mostrada no Festival of the Mind, da Universidade de Sheffield, e depois ficará exposta de forma permanente no Museu do Vidro Turner, da mesma instituição. A revista acrescenta que a pesquisa pode ter usos práticos, como ajudar no desenvolvimento de novos materiais para tecnologias que trabalham com a luz e aperfeiçoar o uso do vidro para guardar com segurança resíduos radioativos.

Um segredo à espera de quem procura

É curioso pensar que artesãos de 1.600 anos atrás já lidavam, sem saber, com uma das áreas mais avançadas da ciência atual. A beleza escondida no ouro, na prata e na luz estava ali desde o princípio, esperando quem tivesse paciência para investigar. A Bíblia fala dessa alegria de descobrir: “A glória de Deus é encobrir as coisas; mas a glória dos reis é esquadrinhá-las” (Provérbios 25:2). Cada segredo da criação revelado com trabalho honesto é também um convite à gratidão.

Com informações de Smithsonian Magazine e The Guardian.

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