Planeta de lava tem nuvens de rocha que refletem três quartos da luz da sua estrela
Observações do telescópio James Webb mostram que o TOI-561 b, a 280 anos-luz, guarda uma atmosfera espessa onde os cientistas esperavam rocha nua

Imagine um planeta tão perto da sua estrela que a superfície é um oceano de rocha derretida e um ano inteiro dura menos de 11 horas. Agora imagine que esse mundo infernal tem um tipo de “protetor solar”: nuvens feitas de minerais que devolvem ao espaço cerca de três quartos da luz que recebem. É o que mostra um estudo sobre o exoplaneta TOI-561 b, observado pelo Telescópio Espacial James Webb, publicado na revista científica The Astronomical Journal e divulgado pelas universidades participantes em 26 e 27 de outubro.
A descoberta surpreendeu porque contraria o que os modelos previam. Segundo os astrônomos, um planeta pequeno e rochoso, tão exposto à radiação da estrela, deveria ter perdido a atmosfera há muito tempo e ser apenas uma rocha escura e nua. Não é o que os dados mostram.
Um mundo onde o ano dura horas
O TOI-561 b fica a cerca de 280 anos-luz da Terra e gira em torno de uma estrela que tem aproximadamente o dobro da idade do Sol. De acordo com a Carnegie Science, instituição que participou de pesquisas anteriores sobre o planeta, ele tem cerca de duas vezes a massa da Terra, completa uma volta em torno da estrela em 10,56 horas e está a uma distância equivalente a um quadragésimo da que separa Mercúrio do Sol. Planetas assim são chamados de “super-Terras ultraquentes”.

Em dezembro de 2025, uma equipe liderada pela astrônoma Johanna Teske, da Carnegie Science, já havia apresentado, na revista The Astrophysical Journal Letters, o que a Nasa chamou de a evidência mais forte até então de uma atmosfera num planeta rochoso fora do Sistema Solar. Se fosse rocha nua, o lado do TOI-561 b voltado para a estrela deveria chegar a cerca de 2.700 °C. A medição indicou algo perto de 1.800 °C, ou seja, alguma coisa estava esfriando o planeta.
Como os cientistas descobriram as nuvens
O novo trabalho, liderado por Samuel Boucher, que começou a pesquisa como estagiário de iniciação científica, e pela professora Lisa Dang, da Universidade de Waterloo, no Canadá, reúne 18 pesquisadores de instituições como as universidades de Birmingham, Oxford, Cambridge, Toronto, Sydney e Stanford, além do MIT e da Carnegie Science.
A equipe apontou o James Webb para o planeta durante 37 horas seguidas, o que cobre quase quatro voltas completas em torno da estrela. Com o espectrógrafo infravermelho NIRSpec, os cientistas registraram como o brilho e o calor do sistema mudavam ao longo de cada órbita, uma técnica chamada curva de fase. Quando o planeta passa por trás da estrela, a pequena queda no brilho total revela quanto da luz vinha dele.
O resultado confirmou que o lado iluminado é bem mais frio do que seria uma rocha escura. E o lado noturno não é quente o bastante para explicar para onde foi essa energia. Ela não estava sendo levada para o outro lado: estava sendo devolvida ao espaço. Segundo a Universidade de Birmingham, o planeta precisa refletir cerca de três quartos da luz que recebe, algo parecido com o que faz Vênus, o planeta mais brilhante do nosso céu noturno.

Para explicar esse brilho, os pesquisadores compararam os dados com simulações de clima por computador. A explicação mais provável são nuvens de silicatos, como dióxido de silício (SiO₂) e silicato de magnésio (MgSiO₃), que se formam no lado diurno. Em outras palavras, nuvens feitas dos mesmos minerais que compõem as rochas e a areia aqui na Terra. “Nossa descoberta desafia as teorias atuais”, afirmou Anjali Piette, da Universidade de Birmingham, uma das autoras do estudo.
O que ainda falta descobrir
Os cientistas ainda não sabem de que gases é feita essa atmosfera. Há duas possibilidades principais: ela pode ser rica em dióxido de carbono, como a de Vênus, só que muito mais quente, ou pode ter grandes quantidades de dióxido de enxofre, gás ligado à intensa atividade vulcânica de Io, uma das luas de Júpiter. Para tirar a dúvida, a equipe planeja novas observações com o James Webb em comprimentos de onda mais longos, capazes de revelar a composição química do ar desse mundo.
A atmosfera, segundo os pesquisadores, provavelmente é reabastecida pelos gases que escapam do interior derretido do planeta, o que ajudaria a explicar como ela resiste à radiação tão intensa.
Cada nova descoberta do James Webb amplia a nossa noção de como o universo é variado e cheio de surpresas. Mundos que os modelos diziam ser impossíveis aparecem diante dos telescópios e nos lembram que a criação é sempre maior do que a nossa compreensão. Ao olhar para tão longe, o salmista já sabia o que estava vendo: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).
Com informações de CNN Brasil e Universidade de Birmingham.



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