Curiosidades27/10/2026

Peixe elétrico do Rio Tefé usa eletricidade para enxergar no escuro da Amazônia

Batizado de curumim, palavra de origem tupi que quer dizer criança, o pequeno peixe de focinho em tubo emite sinais elétricos mais de mil vezes por segundo

Peixe elétrico do Rio Tefé usa eletricidade para enxergar no escuro da Amazônia
Foto: reprodução / Xataka Brasil

No fundo escuro do Rio Tefé, no Amazonas, vive um peixe que não precisa de luz para encontrar comida. O Sternarchorhynchus curumim tem um focinho longo e fino, parecido com um tubo, e cria ao redor do corpo um campo elétrico que funciona como um radar. A espécie voltou a chamar a atenção em reportagens publicadas em 25 e 26 de outubro pelos sites Xataka Brasil e Terra, e é um bom exemplo de como a Amazônia ainda guarda segredos nas partes mais fundas dos seus rios.

O peixe não é exatamente uma novidade de agora. Ele foi descrito oficialmente em 2006 pelos pesquisadores Carlos David de Santana e William G. R. Crampton, em um estudo publicado na revista científica Zootaxa. Mas, de lá para cá, segundo os registros científicos, a espécie só é conhecida pelos poucos exemplares coletados naquela ocasião, o que mostra como é difícil estudar os bichos que vivem longe das margens.

O Rio Tefé, no Amazonas, onde vive o peixe elétrico curumim
O Rio Tefé, no Amazonas, onde vive o peixe elétrico curumim Foto: Wilson Dias/Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Um curumim de 16 centímetros

Os exemplares usados na descrição foram coletados em outubro de 1999, num ponto do Rio Tefé chamado Toco Preto, no município de Tefé. Eles estavam no canal principal do rio, entre 5 e 14 metros de profundidade, no fim do período de águas baixas. O exemplar escolhido como referência da espécie, chamado holótipo, é uma fêmea de 163 milímetros. Os outros exemplares mediam entre 181 e 211 milímetros.

O nome também conta uma história. Segundo a descrição científica, curumim vem do português do Brasil, com origem no tupi-guarani, e quer dizer criança. Os pesquisadores escolheram a palavra por causa do tamanho pequeno da espécie quando comparada a seus parentes.

Encontrar um peixe diferente não basta para dizer que ele é uma espécie nova. Os cientistas precisam comparar o corpo do animal com o das espécies já conhecidas e achar diferenças constantes. No caso do curumim, entre os sinais que o separam dos parentes do mesmo gênero estão o número de escamas acima da linha lateral, de 10 a 11 no meio do corpo, a quantidade de raios da nadadeira anal, de 179 a 189, e o padrão de cor: a cabeça e o meio das costas são tão escuros quanto as laterais, e as nadadeiras são translúcidas, sem bordas escuras.

Um radar elétrico no fundo do rio

O Rio Tefé é um rio de águas pretas, pobre em nutrientes e com pouquíssima condutividade elétrica, entre 6 e 20 microsiemens por centímetro, segundo os dados do estudo. Nessa água escura e funda, enxergar é quase impossível. É aí que entra a habilidade mais curiosa do curumim.

Como outros peixes elétricos, ele produz descargas contínuas que formam um campo elétrico em volta do corpo. Sensores espalhados pela pele percebem qualquer mudança nesse campo, causada por uma pedra, uma presa ou outro peixe. É a chamada eletrolocalização, uma espécie de mapa feito de eletricidade. Os pesquisadores registraram a descarga da fêmea usada na descrição: um sinal em forma de onda, muito estável, repetido 1.168 vezes por segundo. Os sinais elétricos também podem servir para a comunicação entre os peixes.

O focinho em forma de tubo completa o equipamento. Com ele, o peixe procura alimento em frestas do fundo do rio. Quando os cientistas examinaram o estômago dos exemplares, encontraram apenas pequenos invertebrados do próprio rio, principalmente larvas de mosquitinhos, de besouros e de plecópteros, insetos que passam a fase jovem dentro d’água. Todos os exemplares coletados estavam em fase de reprodução.

O que ainda falta descobrir

Segundo as reportagens, o curumim reforça o quanto os canais profundos da Amazônia ainda são pouco estudados. As margens e as áreas rasas são mais fáceis de alcançar, mas os canais fundos exigem barcos, redes e equipamentos especiais. Cada espécie descrita com cuidado ganha um nome e um lugar na classificação científica, o que permite que outros pesquisadores a reconheçam no futuro e ajuda a proteger a riqueza dos rios brasileiros.

Um peixe pequeno, escondido onde quase ninguém chega, e equipado com um sistema tão preciso faz pensar na sabedoria de quem criou cada detalhe da natureza, até onde os olhos humanos não alcançam. Há milhares de anos, o livro de Jó já convidava a aprender com a criação, em Jó 12:8: “ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to declararão.”

Com informações de Xataka Brasil e Terra.

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