Estudo mostra quando a previsão do El Niño merece confiança até um ano antes
Pesquisa com mais de 7,5 mil previsões de nove países indica que o estado do Pacífico no início do cálculo pesa muito no acerto

O El Niño e a La Niña mexem com a chuva e com o calor em boa parte do planeta, inclusive no Brasil, e saber com antecedência quando eles vão chegar ajuda governos, agricultores e defesas civis a se preparar. Um estudo publicado em 23 de outubro na revista científica Science Advances trouxe uma pista importante: a confiabilidade de uma previsão depende muito de como está o Oceano Pacífico no momento em que ela é feita. Em certas condições, os modelos conseguiram antecipar a mudança com até um ano de antecedência.
A pesquisa foi liderada por Nandini Ramesh, da agência científica australiana CSIRO, e tem entre os autores Mandy Freund, da Universidade de Melbourne, na Austrália. A equipe analisou mais de 7,5 mil previsões históricas produzidas por modelos climáticos de nove países, para entender em quais situações elas acertam mais e em quais erram mais.
O que são o El Niño e a La Niña
Os dois são fases opostas de um mesmo fenômeno natural, chamado pelos cientistas de El Niño-Oscilação Sul. No El Niño, as águas da superfície do Pacífico tropical, perto da linha do Equador, ficam mais quentes do que o normal. Na La Niña, acontece o contrário: elas esfriam além do esperado. Essas mudanças alteram a circulação do ar na atmosfera e, com ela, o regime de chuvas e as temperaturas em várias regiões do mundo.

No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño costuma reduzir as chuvas no Norte e em parte do Nordeste, o que favorece estiagens mais longas, enquanto no Sul a tendência é de mais chuva, porque as frentes frias ficam paradas por mais tempo sobre a região. Por isso, o fenômeno interessa diretamente a quem planta, a quem cuida dos reservatórios e a quem precisa se preparar para enchentes.
De acordo com as reportagens sobre o estudo, esses eventos costumam atingir o auge por volta de dezembro e, em geral, podem ser previstos com segurança cerca de seis meses antes. Ir além disso sempre foi um desafio.
A La Niña como ponto de partida
O resultado mais chamativo foi que as previsões iniciadas durante uma La Niña tiveram bom desempenho mesmo quando tentavam olhar um ano à frente. Em três dos nove modelos estudados, a passagem da La Niña para o El Niño foi prevista corretamente em mais de 70% dos casos com um ano de antecedência. O caminho inverso também funcionou: previsões começadas durante um El Niño anteciparam a chegada da La Niña acima da média histórica, com até 74% de acerto.
Segundo Mandy Freund, o bom desempenho das previsões feitas durante a La Niña sugere que essa fase deixa o sistema do Pacífico tropical mais previsível ao longo do ano seguinte.
A dificuldade aparece quando o oceano está em condição neutra, sem sinais claros de nenhum dos dois fenômenos. Nesses momentos, as previsões foram bem menos confiáveis. Na prática, isso quer dizer que um alerta de El Niño emitido em plena La Niña merece bastante crédito, enquanto o mesmo alerta dado num período neutro deve ser tratado com cautela. Os pesquisadores também notaram que os modelos tradicionais, baseados nas leis da física, tiveram mais dificuldade justamente nas condições neutras, e que métodos estatísticos e de aprendizado de máquina podem ajudar a melhorar esses casos.
Nandini Ramesh destacou que já se sabia que o ponto de partida influencia o desempenho dos modelos, mas que o estudo mostra o tamanho dessa diferença. Ela lembrou, porém, que ainda faltam alguns passos até que o método seja usado pelas agências que fazem as previsões oficiais. Ou seja, a descoberta não significa que todos os El Niños já podem ser previstos com um ano de antecedência, e sim que fica mais fácil saber em qual previsão confiar.
Ordem no meio das mudanças
Descobrir que o oceano segue padrões que podem ser estudados, medidos e, em parte, antecipados é uma forma de enxergar a ordem que existe na criação. Depois do dilúvio, Deus fez uma promessa que atravessa os séculos: “Enquanto a terra durar, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite” (Gênesis 8:22). Quando a ciência ajuda a avisar mais cedo sobre secas e enchentes, ela também se torna um instrumento para proteger vidas e cuidar do próximo.
Com informações de Olhar Digital e iG Último Segundo.



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