Curiosidades23/10/2026

Três plantas novas para a ciência são descobertas nas pedras da Mata Atlântica

Parentes das quaresmeiras, as espécies vivem em afloramentos rochosos de Minas Gerais e do Espírito Santo; uma já é considerada em perigo e outra, vulnerável

Três plantas novas para a ciência são descobertas nas pedras da Mata Atlântica
Foto: Dayvid Couto / INMA / Conexão Planeta

No alto de grandes pedras que se erguem no meio da paisagem de Minas Gerais e do Espírito Santo, onde o solo é raso, o sol castiga e a água é pouca, botânicos brasileiros encontraram três plantas que a ciência ainda não conhecia. As novas espécies são parentes das quaresmeiras, aquelas árvores que enchem de roxo e rosa as encostas e as ruas de muitas cidades do país, e foram descritas em um artigo publicado em outubro na revista científica Phytotaxa, especializada em classificação de plantas.

As três receberam os nomes de Pleroma latisepalum, Pleroma leucotrichum e Pleroma squamipilosum. Todas pertencem à família Melastomataceae e ao mesmo gênero das quaresmeiras. Os nomes, em latim botânico, remetem a traços das próprias plantas: sépalas largas, pelos claros e pelos em forma de escama. A descoberta foi divulgada pelo portal Conexão Planeta em 20 de outubro e repercutiu em veículos do Espírito Santo, como a Rede Notícia ES.

Quaresmeiras em flor: as três novas espécies são do mesmo gênero, Pleroma
Quaresmeiras em flor: as três novas espécies são do mesmo gênero, Pleroma Foto: Mauroguanandi / Wikimedia Commons (Domínio público)

Quem descobriu e como

O estudo reúne pesquisadores de três instituições. Participaram Dayvid Rodrigues Couto, do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes); Fabrício Schmitz Meyer, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Museu Botânico Municipal de Curitiba; Ludovic Jean Charles Kollmann, do INMA; e Renato Goldenberg, também da UFPR.

Descrever uma espécie nova não é questão de olhar uma flor diferente e dar um nome a ela. Segundo a reportagem do Conexão Planeta, os botânicos examinaram com cuidado folhas, flores e estruturas reprodutivas e compararam tudo com exemplares guardados em coleções científicas, como o Herbário MBML, mantido pelo INMA. Meyer explicou que as diferenças entre espécies parecidas nem sempre saltam aos olhos e só aparecem quando várias características são analisadas juntas. Kollmann lembrou o valor dos herbários, que conservam registros capazes de ser estudados muitos anos depois de coletados.

Ilhas de pedra no meio da floresta

As três plantas vivem em afloramentos rochosos chamados de inselbergues, palavra de origem alemã que quer dizer algo como “montanha-ilha”. São blocos de rocha isolados que se destacam na paisagem, como verdadeiras ilhas de pedra cercadas de mata ou de pasto. Quem já passou pelo norte do Espírito Santo conhece bem essas formações, que marcam o horizonte de vários municípios. “Os inselbergues possuem uma flora muito particular”, afirmou Couto ao Conexão Planeta. Como o ambiente é duro, com pouca terra, muita exposição ao sol e escassez de água, ali sobrevivem plantas especializadas, que muitas vezes não existem em nenhum outro lugar.

Pedra do Elefante, em Nova Venécia (ES): o município é um dos lugares onde a Pleroma squamipilosum foi registrada
Pedra do Elefante, em Nova Venécia (ES): o município é um dos lugares onde a Pleroma squamipilosum foi registrada Foto: Francisco Schneider Junior / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

É justamente por isso que algumas das novas espécies já nascem, para a ciência, sob alerta. A Pleroma leucotrichum foi classificada de forma preliminar como “em perigo”: até agora, só é conhecida no complexo rochoso Pedra do Fio/Pedra dos Cabritos, em Castelo, no sul do Espírito Santo, uma área que não está dentro de nenhuma unidade de conservação. A Pleroma latisepalum foi considerada “vulnerável”, porque seus registros se concentram em apenas dois afloramentos, nos municípios mineiros de Itaipé e Novo Cruzeiro.

Já a Pleroma squamipilosum foi encontrada em Nova Venécia, no norte capixaba, e em localidades de Minas Gerais. Para ela, os pesquisadores ainda não têm dados suficientes para avaliar o risco de extinção, o que não quer dizer que esteja a salvo. Entre as pressões que pesam sobre esses ambientes, o estudo cita a extração de rochas ornamentais, as atividades agropecuárias e o turismo de aventura, que, dependendo da intensidade, podem alterar o hábitat de plantas que vivem em áreas tão pequenas.

Ainda há muito a conhecer

A Mata Atlântica é um dos biomas mais estudados do Brasil, e mesmo assim continua revelando novidades. “A descoberta de novas espécies mostra que ainda há muito a conhecer sobre a biodiversidade da Mata Atlântica”, disse Renato Goldenberg. Para os pesquisadores, dar nome a uma planta é o primeiro passo para protegê-la: só se cuida bem daquilo que se conhece, se sabe onde está e quantos exemplares existem.

Há algo de bonito em pensar que flores delicadas brotam justamente onde quase nada parece capaz de crescer, presas à rocha, debaixo de sol forte e com tão pouca água. Elas estavam ali havia muito tempo, floresciam sem que ninguém as tivesse descrito, e agora entram no catálogo humano como mais um sinal da criatividade do Criador. O salmista já se admirava diante disso: “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmo 104:24).

Com informações de Conexão Planeta e Rede Notícia ES.

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