Cães sem pelo de 1.200 anos contam como era a vida num antigo império do Peru
Ossos e um cão mumificado achados no Castillo de Huarmey mostram que a raça peruana já convivia com a elite wari séculos antes dos incas

Muito antes de os incas dominarem os Andes, cães sem pelo já faziam parte da vida de uma das primeiras grandes civilizações da América do Sul. Arqueólogos que estudam o Castillo de Huarmey, na costa norte do Peru, identificaram ali os restos de pelo menos 19 cães e o corpo inteiro, mumificado, de um macho com pelo menos 1.200 anos. Entre esses animais estão as primeiras evidências físicas, naquele sítio, do cão sem pelo peruano, uma raça que até hoje é símbolo do país. O estudo foi publicado no periódico científico Journal of Anthropological Archaeology e ganhou destaque na imprensa brasileira em 18 e 19 de outubro de 2026, na revista Galileu e no portal Metrópoles.
A pesquisa é liderada por Weronika Tomczyk, do Departamento de Antropologia do Dartmouth College, nos Estados Unidos, em parceria com arqueólogos da Universidade de Varsóvia, na Polônia, e da Universidade de Pittsburgh. O interesse vai além da curiosidade: os ossos ajudam a entender como as pessoas daquela época se relacionavam com os animais no dia a dia.
Um palácio no deserto
O Castillo de Huarmey fica a cerca de 305 quilômetros ao norte de Lima, a capital peruana, e ocupa 44,5 hectares. Foi um centro administrativo e funerário do Império Wari, considerado o primeiro império de fato dos Andes. É o único sítio wari encontrado até agora na costa norte do Peru e teria sido ocupado entre os anos 600 e 1050 depois de Cristo, cerca de 400 anos antes da ascensão dos incas.
O lugar ficou famoso em 2012, quando os pesquisadores encontraram uma tumba intacta da elite, com os restos de 58 mulheres de alta posição social e cerca de 1.300 objetos. Em 2022, vieram à luz sepulturas de artesãos importantes, acompanhados de ferramentas de ouro, prata e bronze. O clima ajuda muito: o deserto extremamente seco da região conserva materiais que normalmente se perdem, como cabelo, pele, tecidos e couro. Por outro lado, um terremoto em 1970 e os saques que vieram depois misturaram as camadas mais altas do terreno, o que obrigou a equipe a separar com cuidado o que é de fato da época wari.
A pista estava nos dentes
Ao todo, as escavações reuniram 341 ossos de cachorro. A partir deles, e sem contar o mesmo animal duas vezes, os pesquisadores chegaram a pelo menos 19 cães, além do esqueleto completo e mumificado de um macho. A datação por radiocarbono indicou que esse animal tem no mínimo 1.200 anos, o que faz dele o cão mais antigo já recuperado no sítio.
Como saber se um cão de mais de mil anos não tinha pelo? Em parte, pela pele preservada: um dos crânios mumificados ainda tinha pele sem pelos, orelhas e sinais de pintura com cinábrio, um pigmento vermelho. Mas a pista decisiva veio da boca. Os pesquisadores notaram que os animais não tinham os primeiros pré-molares, e não porque os perderam em vida: esses dentes simplesmente nunca nasceram. A ciência já associa o gene responsável pela falta de pelo nesses cães a uma redução no número de dentes, e foi essa combinação que permitiu a identificação.
Outra ferramenta foi a análise química de ossos e dentes, que revela traços da alimentação e da origem de cada animal. A maioria dos cães comia milho, a base da dieta andina antes da chegada dos europeus, o que indica uma alimentação parecida com a das pessoas. Os filhotes que provavelmente eram sem pelo tinham uma dieta semelhante à das crianças do lugar. “É evidente que receberam tratamento diferente dos outros cães”, afirmou Tomczyk, segundo a Universidade de Dartmouth.
Companheiros na vida e na morte
O contexto dos enterros reforça essa ideia. Um filhote de seis a oito semanas foi sepultado junto a um artesão de elite apelidado pelos arqueólogos de “Mestre Cesteiro”. Ossos de um cão adulto apareceram no palácio, e parte do esqueleto de outro filhote estava ao lado de um homem que, segundo os pesquisadores, provavelmente serviu de guardião da tumba. Nem todos os cães tiveram o mesmo destino: alguns foram enterrados com cuidado, outros estavam entre restos descartados. Poucos ossos tinham marcas de corte, sinal de que comer carne de cachorro não era comum ali.
Tomczyk lembra que a convivência entre gente e animais podia ser contraditória: o bicho de estimação de uma família podia ser visto como praga pelos vizinhos. Ela também reconhece que reconstruir esse vínculo é difícil, porque as emoções do passado quase não deixam marcas que a arqueologia consiga medir. Ainda assim, os dados mostram que humanos e cães dividiam o mesmo espaço naquele centro wari.
Hoje, a raça segue viva. O cão sem pelo do Peru, também conhecido como orquídea inca, foi declarado patrimônio cultural do país em 2000 e aparece com frequência na cerâmica dos antigos povos da costa andina.
A amizade entre pessoas e cães atravessa séculos e culturas, e achados como este lembram que os animais fazem parte da nossa história. Eles também têm algo a ensinar sobre a ordem e a beleza da criação. No livro de Jó, capítulo 12, versículo 7, está escrito: “Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te farão saber”. Basta olhar com atenção.
Com informações de Revista Galileu e Metrópoles.



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