Curiosidades18/10/2026

Fotos feitas numa trilha da Serra Catarinense revelam uma flor nova para a ciência

Confundida por décadas com outra espécie, a Alstroemeria durantei ganhou nome em homenagem ao guia de turismo que a fotografou em Lauro Müller (SC)

Fotos feitas numa trilha da Serra Catarinense revelam uma flor nova para a ciência
Foto: Divulgação/João Paulo Durante / Flipar

Uma caminhada com a câmera na mão terminou, anos depois, no registro de uma planta que a ciência ainda não conhecia. As fotos que o guia de turismo e fotógrafo da natureza João Paulo Durante fez em 2021 na Trilha do Cabo Aéreo, em Lauro Müller, no sul de Santa Catarina, chamaram a atenção de botânicos e ajudaram a revelar uma nova espécie de flor. Ela foi batizada de Alstroemeria durantei, em homenagem ao autor dos primeiros registros.

A descrição oficial saiu na revista científica Phytotaxa, especializada em classificação de plantas, em um artigo publicado em 27 de maio. O trabalho é assinado por Júlia Gava Sandrini, Vicente Nava Lenhani, Kristian Madeira, Robson dos Santos, Guilherme Alves Elias e Luís Adriano Funez, pesquisadores ligados à Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), em Criciúma. A história do fotógrafo por trás da descoberta ganhou o noticiário em outubro.

Escondida à vista de todos

O gênero Alstroemeria é conhecido de muitos brasileiros, mesmo de quem nunca ouviu o nome científico: é o das astromélias, flores muito usadas em buquês e arranjos, nativas da América do Sul. Na natureza, várias espécies crescem em campos e matas do leste do país.

A planta de Lauro Müller estava, de certa forma, escondida à vista de todos. Segundo o estudo, ela vinha sendo confundida havia décadas com outra espécie já conhecida, a Alstroemeria cunha. Durante trabalhos de campo no sul catarinense, a equipe percebeu algo estranho em exemplares guardados em herbários, as coleções científicas de plantas secas, que estavam identificados como A. cunha. Ao comparar esse material com plantas coletadas no Paraná e em São Paulo, os pesquisadores encontraram diferenças consistentes.

As flores da nova espécie têm tépalas, as “pétalas” das astromélias, mais estreitas e alongadas, e uma coloração própria, que passa do vermelho para tons de amarelo e verde nas pontas. Para não depender só do olhar, os botânicos mediram em detalhe as estruturas das flores e aplicaram análises estatísticas, que confirmaram a separação entre as duas espécies. O artigo também destaca o valor dos herbários, que guardam plantas coletadas ao longo de muitos anos e permitem esse tipo de comparação.

O olhar do cidadão cientista

João Paulo Durante, que também é observador de aves, só soube da homenagem quando o artigo ficou pronto. O nome escolhido foi mantido em segredo até a publicação. De acordo com a reportagem, foi a botânica Júlia Gava Sandrini quem enviou a ele o artigo e uma foto da planta. Ao reconhecer os próprios registros e ler o nome da espécie, ele contou ao g1 que chorou de emoção.

Para Durante, a descoberta mostra a força de quem observa a natureza por paixão. “Somos uma imensa rede de olhos e ouvidos espalhados pelo campo”, disse, ao falar do papel dos chamados cidadãos cientistas, pessoas comuns que fotografam, anotam e compartilham o que encontram e acabam ajudando a pesquisa e a conservação.

Uma flor rara e já ameaçada

A alegria da descoberta vem acompanhada de um alerta. Das nove populações conhecidas da Alstroemeria durantei, apenas uma fica dentro de uma área protegida. As outras crescem em propriedades particulares, pastagens e beiras de estrada, lugares onde a vegetação costuma ser roçada ou alterada. Segundo Júlia Gava Sandrini, muitas vezes a planta é cortada simplesmente porque as pessoas não sabem que se trata de uma espécie rara. Ela consegue rebrotar, explica a pesquisadora, mas esses cortes atrapalham o seu ciclo de vida e a reprodução.

A região onde a flor foi encontrada fica no caminho da Serra do Rio do Rastro, uma das paisagens mais conhecidas de Santa Catarina. Saber que ali existe uma planta que só agora ganhou nome é um convite para olhar com mais atenção para a beira da trilha e para o pasto, e para pensar duas vezes antes de arrancar aquela flor diferente.

É curioso pensar que uma flor bonita assim passou tanto tempo sem ser notada, até que alguém parou para olhar de perto. Jesus usou justamente as flores do campo para falar do cuidado de Deus com cada detalhe da criação, e com cada um de nós: “Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam” (Mateus 6:28).

Com informações de Flipar e Phytotaxa.

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