Anéis de Chariklo, descobertos com liderança brasileira, mudam mais rápido que o esperado
Observação do telescópio James Webb mostra que o anel interno do pequeno astro ficou mais denso e o externo quase sumiu em poucos anos

Quando se fala em anéis no espaço, quase todo mundo pensa em Saturno. Mas existe um corpo celeste bem menor, com apenas cerca de 250 quilômetros de diâmetro, que também tem os seus. Ele se chama Chariklo (em português, Cáriclo), e uma nova observação do telescópio espacial James Webb mostrou que esses anéis estão mudando muito mais depressa do que os astrônomos imaginavam. A descoberta tem um sabor especial para o Brasil: foi uma equipe liderada por um astrônomo brasileiro que revelou a existência desses anéis, em 2013.
O novo estudo foi publicado em 9 de setembro de 2026 na revista científica Science Advances e voltou ao noticiário brasileiro nesta semana. O trabalho foi liderado por Pablo Santos-Sanz, pesquisador do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC), na Espanha.
Um pequeno astro com anéis
Chariklo é um centauro, nome dado aos pequenos corpos parecidos com asteroides que giram em torno do Sol entre as órbitas de Saturno e Urano. Ele fica a cerca de 17 vezes a distância entre a Terra e o Sol. Foi descoberto em 15 de fevereiro de 1997 pelo astrônomo americano James Scotti, do projeto Spacewatch, e recebeu o nome da ninfa Cáriclo, que na mitologia grega era esposa do centauro Quíron.
Por muito tempo, acreditou-se que anéis eram coisa de planetas gigantes, como Saturno, Júpiter, Urano e Netuno. Isso mudou na noite de 3 de junho de 2013, quando Chariklo passou na frente de uma estrela e o brilho dela piscou duas vezes antes e depois de o astro cobri-la. O fenômeno, chamado de ocultação estelar, foi observado de vários pontos da América do Sul, com a participação de 13 telescópios. A equipe foi liderada por Felipe Braga-Ribas, então pesquisador do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, e o resultado saiu na revista Nature em 26 de março de 2014. Foi a primeira vez que se encontrou um sistema de anéis em torno de um corpo que não é planeta.

Os dois anéis são estreitos, com cerca de 7 e 3 quilômetros de largura, separados por um vão de aproximadamente 9 quilômetros, e ficam a cerca de 390 e 405 quilômetros do centro de Chariklo. A equipe deu a eles apelidos bem brasileiros: o interno ganhou o nome de Oiapoque e o externo, Chuí, em homenagem aos dois extremos do país. Nos artigos científicos, eles aparecem como C1R e C2R.
O que o James Webb viu
Em 18 de outubro de 2022, o James Webb observou uma nova ocultação. Foi a primeira passagem de um pequeno corpo do Sistema Solar diante de uma estrela prevista com antecedência e observada com sucesso pelo telescópio. Segundo o pesquisador Yücel Kılıç, do mesmo instituto espanhol, isso exigiu conhecer a órbita de Chariklo com extraordinária precisão. A câmera infravermelha NIRCam registrou o brilho da estrela milhares de vezes em pouco mais de uma hora, o que permitiu medir quanto de luz cada anel bloqueava.
O resultado surpreendeu. O anel interno, Oiapoque, bloqueou cerca de 50% mais luz do que nas medições feitas em 2013, 2014 e 2017, sinal de que ficou mais denso. O externo, Chuí, fez o caminho contrário: seu sinal ficou cerca de 60% mais fraco do que em 2017, a ponto de quase não ser detectado. Já a posição dos dois anéis se manteve praticamente a mesma ao longo de cerca de uma década.
Santos-Sanz resumiu a importância do achado ao dizer que os resultados obrigam os cientistas a repensar como esses anéis se formam, como evoluem e quais mecanismos mantêm sua estabilidade. Até então, imaginava-se que anéis ao redor de corpos pequenos fossem estruturas mais estáveis.
As explicações em estudo
Os autores ainda não sabem o que causou a mudança e apresentam algumas possibilidades. Pode ter havido uma alteração real na quantidade de material dos anéis, por exemplo com colisões entre as partículas gerando mais fragmentos pequenos. Também é possível que parte da diferença venha do tipo de luz usada: o Webb enxerga no infravermelho, e o tamanho e a composição dos grãos, que podem ser de gelo e de rocha, mudam a forma como cada anel aparece. Há ainda a hipótese de uma pequena lua, ainda não vista, que ajudaria a manter os anéis no lugar e a alimentá-los com material novo. Novas observações vão ser necessárias para tirar a dúvida.
É curioso pensar que um astro tão pequeno e tão distante, invisível a olho nu, guarde detalhes tão delicados, que só agora começamos a perceber. A cada nova descoberta, o céu lembra o que diz o salmista: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).
Com informações de Catraca Livre e EarthSky.



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