Curiosidades26/10/2026

Cacto de flor branca que abre à noite é descoberto na Caatinga baiana após um século

Batizado de Quiabentia pelodaserra, nome tirado do jeito que os moradores chamam a planta, é só o terceiro do seu gênero e já nasce criticamente ameaçado

Cacto de flor branca que abre à noite é descoberto na Caatinga baiana após um século
Foto: reprodução / Blog do Waldiney Passos

No alto de um afloramento de calcário, em trilhas tão pontiagudas que nenhum botânico tinha se arriscado por ali, um professor baiano encontrou uma planta que a ciência ainda não conhecia. É um cacto de caules finos, folhas pequenas e flores brancas e compridas, que se abrem ao anoitecer. Chamado de Quiabentia pelodaserra, ele é apenas a terceira espécie descrita do gênero Quiabentia, e a primeira em mais de cem anos.

A descoberta é do botânico José Alves Siqueira, professor do Colegiado de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). O local fica numa área de Caatinga na divisa entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte da Bahia, sobre rochas da chamada Formação Bambuí.

Um nome que veio do povo

O que fez o pesquisador parar foram as flores brancas, que ficam penduradas depois de abertas e guardam uma grande câmara de néctar. Especialista em cactos e bromélias, Siqueira não reconheceu a planta nem nos livros nem nas suas andanças pelo sertão. Para confirmar a suspeita, recorreu a dois nomes de peso no estudo dos cactos, os botânicos Daniela Zappi e Nigel Taylor, que atestaram que se tratava de algo novo.

Juntos, eles descreveram a espécie no artigo “An extraordinary third species of Quiabentia Britton & Rose (Cactaceae-Opuntioideae-Cylindropuntieae), from the Caatinga of Northeastern Brazil”, publicado na revista científica Bradleya, editada anualmente pela Sociedade Britânica de Cactos e Suculentas.

O nome científico tem um detalhe bonito. “Pelo da Serra” é como os moradores da região chamam a planta, por causa dos espinhos finos que grudam na roupa e na pele de quem passa. Os pesquisadores decidiram manter a expressão, uma forma de reconhecer o conhecimento de quem convive com a planta há muito tempo.

As duas outras espécies do gênero são a Quiabentia zehntneri, descrita em 1919, e a Quiabentia verticillata, descrita em 1923. Ambas têm flores cor-de-rosa, que se abrem de dia e são visitadas por abelhas e beija-flores. A nova espécie é diferente justamente nas partes reprodutivas. “A diferença entre as espécies está documentada principalmente nas partes reprodutivas: flor, fruto e semente”, explicou Siqueira. A população encontrada fica a cerca de 300 quilômetros da ocorrência mais próxima da Quiabentia zehntneri.

Quiabentia zehntneri, parente da nova espécie descrita em 1919, cultivada em jardim botânico na Polônia
Quiabentia zehntneri, parente da nova espécie descrita em 1919, cultivada em jardim botânico na Polônia Foto: Agnieszka Kwiecień, Nova / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Polinizada por morcegos?

Flores brancas, grandes, cheias de néctar e que se abrem à noite costumam ser um convite a visitantes noturnos. Por isso os pesquisadores suspeitam que a polinização seja feita por morcegos. Ainda não há registro direto dessas visitas, mas, se a hipótese for confirmada, será o primeiro caso conhecido de polinização por morcegos entre os cactos do grupo das opuntioides, o mesmo grupo da conhecida palma.

A alegria da descoberta vem acompanhada de preocupação. A espécie mal ganhou nome e já foi classificada como Criticamente em Perigo, a categoria que indica risco extremamente alto de extinção na natureza. Até agora ela só foi registrada num único lugar, com área estimada em 72 quilômetros quadrados, no distrito biogeográfico de Irecê. O ambiente sofre pressão da expansão agrícola e urbana, da mineração de calcário, da abertura de estradas e do excesso de pastoreio de ovinos.

Para garantir uma reserva, o professor mantém duas plantas em cultivo no Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas das Caatingas (Crad), da Univasf, em Petrolina (PE). É a chamada conservação fora do habitat, pensada para uma futura reintrodução na natureza. “O grande desafio agora é como conservar esse tesouro da Caatinga”, resumiu Siqueira, que defende estratégias em parceria com o poder público e com as comunidades locais.

A planta foi encontrada em 2025, durante o pós-doutorado do professor na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, em Piracicaba (SP). Ao longo de um ano, ele percorreu e fotografou paisagens da Caatinga para o livro “Guia das Plantas da Caatinga”, que prepara com o professor Vinicius Castro Souza, da Esalq/USP.

Paisagem de Caatinga no município de Uauá, no sertão da Bahia
Paisagem de Caatinga no município de Uauá, no sertão da Bahia Foto: CesarCoelho667 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Caatinga que floresce

Muita gente ainda imagina a Caatinga como uma terra seca e sem vida. Descobertas como esta mostram o contrário: o sertão guarda belezas que só aparecem para quem anda com atenção, às vezes apenas depois que o sol se põe. Diante de uma flor que esperou mais de um século para ser conhecida, é difícil não lembrar da promessa de Isaías 35:1: “O deserto e a terra sedenta se regozijarão; e o ermo exultará e florescerá”. Cuidar desse tesouro também é cuidar da obra do Criador.

Com informações de Blog do Waldiney Passos e Edenevaldo Alves.

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