Fóssil guardado há 25 anos em museu de Londres revela um dinossauro novo
O Paludohadros, herbívoro do tamanho de um rinoceronte, viveu nos pântanos do sul da Inglaterra e foi descrito por um doutorando ligado à USP

Um esqueleto parcial tirado do chão de uma olaria inglesa em 2001 passou um quarto de século nas coleções do Museu de História Natural de Londres sem que ninguém soubesse exatamente o que ele era. Agora a resposta veio: trata-se de uma espécie de dinossauro até então desconhecida, batizada de Paludohadros proudlovii. O estudo foi publicado na revista científica Journal of Systematic Palaeontology e anunciado pelo museu em 27 de outubro de 2026.
A história tem um detalhe que interessa de perto ao leitor brasileiro: o autor principal do trabalho é Ricardo Sacamoto, doutorando do Museu de História Natural de Londres e da Universidade de São Paulo (USP). “É a primeira espécie que eu nomeio, e é uma honra ter podido trabalhar nela”, afirmou o pesquisador, segundo o site Sci.News. A autora sênior é a paleontóloga Susannah Maidment, do mesmo museu e da Universidade de Birmingham.
Um herbívoro dos pântanos
O Paludohadros pertence ao grupo dos iguanodontes, dinossauros que comiam plantas e são conhecidos por um esporão pontudo no lugar do polegar. Ele viveu há cerca de 125 milhões de anos, no início do período Cretáceo, numa região baixa e alagada onde hoje fica o condado de Surrey, no sul da Inglaterra. É daí que vem o nome: palus quer dizer pântano em latim.
Segundo os pesquisadores, o animal media cerca de 5 metros de comprimento e pesava entre 1,5 e 2 toneladas, mais ou menos o porte de um rinoceronte. Os ossos, porém, ainda não estavam totalmente formados, sinal de que se tratava de um indivíduo jovem. Um adulto poderia chegar a ter cerca do dobro desse tamanho.
Os fósseis foram encontrados nas camadas de rocha conhecidas como Formação Weald Clay, numa fábrica de tijolos e telhas, e depois doados ao museu. De acordo com o estudo, este é o primeiro iguanodonte formalmente descrito dessas camadas naquela olaria. O nome da espécie, proudlovii, homenageia Will Proudlove, funcionário da fábrica que chegou a gerente do local e morreu jovem, pouco antes da escavação. A viúva, Rachael Proudlove, disse que a família ficou “muito feliz e honrada” porque o nome e o legado dele vão continuar nesse dinossauro.
Vizinho de um famoso caçador
A mesma olaria já tinha entrado para a história da paleontologia em 1983, quando ali foi encontrado o Baryonyx walkeri, um carnívoro de duas pernas com focinho comprido, parecido com o de um crocodilo. Os restos do Paludohadros estavam a apenas 100 metros de distância dos do Baryonyx, e os dois estão hoje sob os cuidados do museu londrino.

A proximidade levanta uma pergunta curiosa. O Baryonyx é conhecido por comer peixes, mas os pesquisadores lembram que, no estômago do esqueleto achado em 1983, também havia restos de um filhote de iguanodonte. Ainda não dá para saber de que espécie era esse filhote. Por isso, os cientistas consideram possível que o Baryonyx caçasse ou aproveitasse carcaças de jovens Paludohadros.
A descoberta faz parte de uma revisão maior. Durante muito tempo, quase todos os iguanodontes encontrados no sul da Inglaterra eram classificados como Iguanodon ou como seu parente menor, o Mantellisaurus. Uma nova análise do Mantellisaurus, feita por cientistas do museu em 2023, mostrou que havia diferenças que não cabiam nessas duas caixas. Desde então surgiram nomes novos, como Brighstoneus, Comptonatus e Istiorachis, e agora o Paludohadros. Os pesquisadores já reconheceram outros exemplares da nova espécie entre fósseis coletados na década de 1950, e a revisão das coleções deve continuar nos próximos anos.

Gavetas que ainda guardam surpresas
A história mostra como a ciência muitas vezes avança devagar: um fóssil pode ficar anos numa gaveta até que alguém, com novas perguntas e novas comparações, perceba o que estava ali o tempo todo. Museus funcionam como bibliotecas da natureza, e cada revisão bem feita ajuda a montar um retrato mais completo da vida que já existiu na Terra.
Diante de tanta variedade de seres, muitos deles conhecidos apenas por ossos de pedra, é natural lembrar as palavras do salmista: “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmos 104:24).
Com informações de Aventuras na História e Sci.News.



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