Fantoche vira “mãe” de corujinha órfã em centro de resgate no Pará, e vídeo encanta a web
Em Belém, cuidadores escondem o rosto e alimentam o filhote de suindara com uma luva em forma de coruja adulta, para que ele cresça sem se apegar às pessoas

O filhote ainda não tem penas. Acomodado num pote de plástico, ele abre o bico e recebe a comida de uma seringa, mas quem parece alimentá-lo é uma coruja adulta de pano. Por trás da luva em forma de ave, uma cuidadora de máscara, com o rosto escondido, faz o trabalho de mãe. A cena foi gravada no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém, e se espalhou pelas redes sociais na segunda quinzena de outubro de 2026.
O vídeo foi publicado pelo próprio centro no Instagram e, depois de viralizar, virou reportagem da CNN Brasil em 27 de outubro. O bichinho é um filhote de suindara, a ave também conhecida como coruja-da-igreja ou rasga-mortalha, muito comum em todo o Brasil e famosa pelo rosto branco em forma de coração.

Por que a cuidadora se esconde
O fantoche não está ali para enfeitar. Segundo a reportagem, trata-se de um manejo anti-imprinting, um conjunto de cuidados para impedir que o filhote se acostume com seres humanos enquanto é criado longe dos pais. Ao imitar a mãe na hora da comida e manter as pessoas fora da vista, a equipe preserva os instintos da ave, inclusive o de desconfiar e se proteger, e aumenta as chances de que ela sobreviva quando for devolvida à natureza.
Na publicação, o centro resumiu a preocupação da equipe: “Cada detalhe importa para preservar o comportamento natural e garantir uma soltura com sucesso no futuro”.
O nome da técnica vem de um fenômeno descrito pelo cientista austríaco Konrad Lorenz, que estudou filhotes de gansos e patos recém-saídos do ovo. Nos primeiros dias de vida, muitos filhotes aprendem a reconhecer e a seguir a figura que cuida deles. Na natureza, essa figura é a mãe. Num centro de resgate, poderia ser a mão humana que traz a comida, e um animal que se apega às pessoas dificilmente consegue viver sozinho depois.
Do pote de plástico ao céu
O vídeo de Belém mostra, em poucos segundos, um cuidado que normalmente acontece longe das câmeras. Cada refeição dada pelo fantoche é um passo na preparação para o dia em que a suindara não vai mais precisar de ninguém: crescer, ganhar penas, aprender a voar e, por fim, caçar sozinha.
O centro da UFRA recebe animais silvestres e exóticos que chegam de acidentes, resgates, apreensões do tráfico e entregas voluntárias, e faz a triagem, o tratamento e, quando possível, a soltura. Entre os pacientes que já passaram por lá, segundo reportagens anteriores sobre o centro, estão até peixes-bois da Amazônia. Por isso, a orientação de quem trabalha na área é sempre a mesma: quem encontrar um filhote de ave silvestre não deve criá-lo em casa, e sim procurar os órgãos ambientais do estado ou a polícia ambiental.
Encanto nas redes
Parte do sucesso do vídeo vem do contraste: a máscara e a luva de pano, que poderiam parecer estranhas, revelam um cuidado delicado com um bicho que ainda cabe na palma da mão. A CNN Brasil, que classificou a gravação como viral, destacou justamente esse detalhe: a mão humana existe, mas o filhote só enxerga a “mãe” coruja.
Há algo bonito em ver gente que se esconde para que um filhote cresça livre. A equipe não quer o carinho da ave, quer vê-la voar um dia longe dali. É um jeito humilde de cuidar da criação, reconhecendo que cada criatura tem o seu lugar no mundo que Deus fez. Como diz o salmista: “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmos 104:24).
Com informações de CNN Brasil.



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