Expedição argentina revela 57 espécies novas para a ciência em cânion no fundo do mar
Corais, pepinos-do-mar e minúsculos crustáceos achados a até 3.900 metros de profundidade, perto de Mar del Plata, eram desconhecidos dos cientistas

No fundo escuro do Atlântico Sul, em frente à costa da Argentina, vivem dezenas de criaturas que ninguém havia descrito até agora. Pesquisadores do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina (CONICET) confirmaram 57 espécies e cinco gêneros novos para a ciência a partir do material recolhido no cânion submarino de Mar del Plata. A notícia foi divulgada no início de outubro e mostra o quanto o oceano profundo ainda guarda de desconhecido.
O resultado veio de um longo trabalho de bastidores. Logo depois da expedição, os cientistas falavam em cerca de 40 possíveis espécies inéditas. Meses mais tarde, ao examinar os animais com calma, a conta subiu para 57.
Uma viagem de 21 dias ao fundo do mar
A expedição, chamada Talud Continental IV, foi realizada em 2025 e durou 21 dias a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, uma organização dedicada à pesquisa oceânica. A missão foi conduzida pelo Grupo de Estudos do Mar Profundo da Argentina, do CONICET, sob a liderança científica de Daniel Lauretta, pesquisador do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia.
O cânion de Mar del Plata tem mais de 3.500 metros de profundidade e, segundo o jornal Perfil, sofre a influência de duas grandes correntes: a do Brasil, que desce com águas mais quentes, e a das Malvinas, que sobe com águas frias. Para chegar onde a luz do sol não alcança, a equipe usou o SuBastian, um veículo operado por controle remoto que desceu até 3.900 metros, filmou o fundo do mar e recolheu amostras. Os mergulhos mostraram recifes de corais de águas profundas e grandes concentrações de animais que vivem no leito do oceano.
A expedição também virou fenômeno na internet. As transmissões ao vivo foram acompanhadas por cerca de 4 milhões de pessoas, e os vídeos somaram aproximadamente 22 milhões de visualizações no mundo, de acordo com o jornal El Sol. Uma estrela-do-mar laranja, comparada pelos internautas ao Patrick do desenho Bob Esponja, ficou famosa, mas, segundo os pesquisadores, ela não é uma espécie nova.
O que foi encontrado
A identificação foi feita em um encontro internacional de especialistas em classificação de seres vivos, realizado de 13 a 24 de julho de 2026 na Universidade Maimônides, em Buenos Aires. Vinte pesquisadores da América Latina e da Europa participaram, numa iniciativa do programa Ocean Census, que busca catalogar a vida marinha, com o Schmidt Ocean Institute e o CONICET.
Das 57 espécies novas, 20 são copépodes, crustáceos minúsculos que fazem parte da base da cadeia alimentar do mar; 22 são equinodermos, grupo dos pepinos-do-mar e dos crinoides; 14 são cnidários, como corais e as chamadas penas-do-mar; e uma é um molusco escafópode, que vive dentro de uma concha em forma de pequeno chifre. Os cinco gêneros novos pertencem a grupos de corais, pepinos-do-mar e crustáceos.
O destaque ficou com um pepino-do-mar do gênero Peniagone, encontrado a 2.577 metros de profundidade. Os pesquisadores o apelidaram de “Loki” por causa de apêndices que saem do corpo e lembram chifres. Segundo o Perfil, só nesse grupo pode haver até dez espécies novas. Entre os corais, os cientistas apontam dois possíveis gêneros desconhecidos e até uma possível família nova, que ainda depende de análises genéticas. Alguns desses corais e penas-do-mar ajudam a formar abrigo para outras espécies das profundezas.
E a lista deve crescer. Os especialistas analisaram apenas cerca de 10% das amostras de copépodes, e todos os exemplares examinados até agora eram novos para a ciência. Parte do material de corais também ainda não foi classificada.
Falta o batismo científico
Os próprios cientistas lembram que reconhecer uma espécie como nova é só o começo. Antes de ganhar um nome científico definitivo, cada uma precisa passar por análises genéticas, comparações anatômicas e pela publicação em revistas especializadas. Os registros foram incluídos na plataforma aberta Ocean Census NOVA, e os exemplares ficarão guardados em coleções científicas argentinas, entre elas a do Museu Argentino de Ciências Naturais. A equipe de Lauretta planeja uma nova campanha com o Schmidt Ocean Institute em fevereiro e março de 2027, para explorar outro cânion do Atlântico Sul.
Seres inumeráveis
É curioso pensar que, enquanto a humanidade discute viagens a outros planetas, ainda há tanta vida por conhecer logo abaixo da superfície do nosso próprio mar. Cada coral, cada pepino-do-mar e cada crustáceo que cabe na ponta de um dedo estava lá muito antes de qualquer câmera chegar, cumprindo o seu papel no lugar onde o Criador o pôs. O salmista já se maravilhava com isso: “Eis também o vasto e espaçoso mar, no qual se movem seres inumeráveis, animais pequenos e grandes” (Salmos 104:25).
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