Boas notícias02/11/2026

Médica assume vaga na maternidade do Recife onde a mãe faz a limpeza há 23 anos

Patrícia Lima cresceu no Ibura, entrou na UPE por cotas e escolheu trabalhar na unidade onde Edilene Gomes é auxiliar de serviços gerais desde que a filha tinha 8 anos

Médica assume vaga na maternidade do Recife onde a mãe faz a limpeza há 23 anos
Foto: Reprodução/Instagram @patricialima_goUma filha de faxineira realizou o sonho de / Só Notícia Boa

A ginecologista e obstetra Patrícia Lima tomou posse, no fim de outubro de 2026, como médica concursada da Prefeitura do Recife na Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques, no bairro do Ibura, na Zona Sul da capital pernambucana. O que torna a notícia especial é quem ela encontrou nos corredores no primeiro dia: a própria mãe, Edilene Gomes, que trabalha na mesma unidade como auxiliar de serviços gerais há 23 anos. A mãe limpa os mesmos corredores em que a filha agora atende gestantes e faz partos.

Patrícia estava entre os 135 profissionais de saúde nomeados pela prefeitura nesse lote, aprovados no concurso realizado em 2024, segundo o portal Só Notícia Boa e o NC News. Quando chegou a hora de escolher a unidade, ela não teve dúvida: pediu a maternidade onde a mãe trabalha desde que ela tinha oito anos de idade. A história ganhou o país depois que a médica contou a conquista nas redes sociais, em 27 de outubro.

Uma infância no Ibura

De acordo com o NC News, Edilene criou as duas filhas sozinha. Durante parte da infância, a família morou em uma ocupação no bairro de Tejipió, também no Recife, e houve períodos em que faltou comida em casa. A situação começou a mudar quando Edilene conseguiu o emprego na maternidade do Ibura: o salário trouxe estabilidade e permitiu que as meninas se dedicassem aos estudos.

Vista aérea do Recife: a maternidade onde mãe e filha trabalham fica no Ibura, na Zona Sul da cidade
Vista aérea do Recife: a maternidade onde mãe e filha trabalham fica no Ibura, na Zona Sul da cidade Foto: Portal da Copa/ME / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

A unidade de saúde, aliás, fazia parte da vida de Patrícia muito antes da posse. Segundo o blog Petrolândia Notícias, que reproduziu reportagem da Folha de Pernambuco, ela cresceu no bairro e frequentava a policlínica desde criança, para consultas, vacinas e atendimento no dentista. Muitos dos funcionários que agora a chamam de doutora a conheceram ainda menina, de mãos dadas com a mãe.

Aos 14 anos, Patrícia ganhou uma bolsa de estudos na escola de referência Cícero Dias, no Recife. Depois fez um pré-vestibular gratuito e, em 2012, entrou no curso de Medicina da Universidade de Pernambuco (UPE) pelo sistema de cotas. Foi a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior. Formou-se em 2018.

Do posto de saúde à sala de parto

Depois de formada, a médica começou a trabalhar na atenção básica em Ipojuca, na Região Metropolitana do Recife. Em seguida, fez residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Barão de Lucena e formação complementar em gestação de alto risco, conforme o NC News. Foi com essa bagagem que prestou o concurso da prefeitura e, convocada, escolheu voltar para o Ibura.

A irmã de Patrícia, Bárbara, também seguiu a área da saúde e se formou em Biomedicina. Na publicação em que contou a novidade, a médica fez questão de dizer que a vitória não era só dela. “Hoje, minha conquista também é da minha mãe. E de todas as mulheres que lutam para que suas filhas possam ir mais longe”, escreveu, segundo o NC News. Ela também destacou o papel das cotas, da universidade pública e do SUS na trajetória das duas irmãs, e disse que trabalhar no sistema público é uma forma de devolver à comunidade o cuidado que recebeu.

Segundo o Petrolândia Notícias, Edilene se emocionou ao saber que dividiria o ambiente de trabalho com a filha. O primeiro expediente das duas na mesma unidade, de acordo com o site Encontra Recife, foi cercado de risadas, histórias antigas e orgulho dos colegas, muitos deles testemunhas de toda a caminhada.

Uma história que fala a muitas famílias

Histórias como a de Patrícia e Edilene são comuns em muitos lares brasileiros, ainda que nem sempre cheguem ao noticiário: mães que acordam cedo, fazem serviço pesado e abrem mão de muita coisa para que os filhos cheguem mais longe do que elas puderam. O detalhe raro aqui é a cena final, mãe e filha vestindo o uniforme no mesmo prédio, uma com a vassoura e o esfregão, a outra com o jaleco, cada uma servindo as mesmas mulheres do bairro de um jeito diferente.

Para quem crê, essa cena lembra que nenhuma lágrima semeada com fé se perde. A Bíblia diz, em Salmos 126:5: “Os que semeiam em lágrimas, com cânticos de júbilo segarão.” Edilene semeou por 23 anos; a colheita, agora, caminha pelos corredores da maternidade do Ibura.

Com informações de Só Notícia Boa e NC News.

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