Escavação revela 300 metros do aqueduto que levava água ao Monte do Templo, em Jerusalém
Obra de cerca de 2 mil anos fazia a água correr só pela gravidade por uns 21 quilômetros e foi usada até cerca de um século atrás

Muito antes das bombas d’água e dos canos de PVC, engenheiros da Antiguidade conseguiram levar água de nascentes distantes até o coração de Jerusalém usando apenas a inclinação do terreno. Um trecho de 300 metros dessa obra, conhecida como Aqueduto Inferior de Jerusalém, acaba de ser revelado em escavações ao sul do kibutz Ramat Rachel, no sul da cidade. O achado foi anunciado pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) em 11 de outubro.
Segundo os arqueólogos, o aqueduto foi construído provavelmente no tempo dos reis hasmoneus, a dinastia judaica que governou a Judeia nos séculos anteriores ao nascimento de Jesus, durante o chamado período do Segundo Templo. Sua função era abastecer Jerusalém e, em especial, o Monte do Templo.
Água que descia sozinha
O sistema captava água de nascentes da região de Gush Etzion e a conduzia pelos chamados Tanques de Salomão, ao sul de Belém, até chegar a Jerusalém. De acordo com os diretores da escavação, Benyamin Storchan e Gil Freid, o aqueduto percorre cerca de 21 quilômetros dos Tanques de Salomão até a cidade.
O segredo estava na precisão. Ao longo da maior parte do caminho, o canal desce apenas um metro a cada quilômetro, uma inclinação suave o bastante para que a água corresse o tempo todo pela força da gravidade, sem nenhuma máquina. Para isso, os construtores acompanharam o desenho dos morros e da rocha, contornando o relevo em vez de enfrentá-lo. Eles também deixaram pontos de acesso ao longo do percurso, que permitiam limpar o canal quando havia entupimento e fazer a manutenção de rotina.
“O Aqueduto Inferior foi um projeto de engenharia impressionante, provavelmente construído no tempo dos reis hasmoneus para abastecer Jerusalém”, afirmaram Storchan e Freid, segundo o The Jerusalem Post. Para eles, o sistema foi tão bem planejado que continuou em uso, de forma intermitente, até cerca de cem anos atrás.
A água era essencial no Monte do Templo, tanto para os rituais religiosos quanto para atender os milhares de peregrinos judeus que subiam a Jerusalém nas grandes festas, de acordo com o site Algemeiner.
Dois mil anos de consertos
O trecho descoberto mostra também como gerações diferentes cuidaram da mesma obra. No início, a água corria por um canal construído e revestido de reboco. Há cerca de 500 anos, no período otomano, foram instalados canos de cerâmica dentro do canal original. Na mesma época, a parede externa recebeu uma nova camada de reboco, e pequenas pedras foram pressionadas nela enquanto a massa ainda estava úmida, criando um acabamento característico que acompanha o aqueduto ao longo do caminho. Para os pesquisadores, esses reparos mostram a importância da obra e o esforço contínuo para garantir água à cidade.
O arqueólogo Amit Re’em, responsável pelo distrito de Jerusalém na IAA, chamou o aqueduto de “maravilha da engenharia” e lembrou que, mesmo com a tecnologia de hoje, construir um sistema assim exigiria muito planejamento e esforço.
Um bairro com história na porta
A escavação foi feita numa área reservada pela Autoridade de Terras de Israel para um novo bairro residencial. Em vez de ficar enterrado sob os prédios, o trecho será preservado e incorporado à entrada principal do bairro, segundo os planos das autoridades de terras e de antiguidades. Assim, moradores e visitantes poderão ver de perto uma parte da antiga rede de água da cidade.
A IAA diz ainda que trabalha, com a prefeitura de Jerusalém e outros parceiros, no projeto de um parque contínuo que permita caminhar ao lado do aqueduto desde o sul de Jerusalém até a Cidade Velha.
A pesquisa sobre o Aqueduto Inferior será apresentada na 19ª edição do congresso Novos Estudos na Arqueologia de Jerusalém e sua Região, realizado em Jerusalém e Tel Aviv pela IAA, pela Universidade de Tel Aviv, pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pelo Instituto Israelense de Arqueologia Tagliyot.
Para o leitor da Bíblia, o achado ajuda a imaginar a Jerusalém do tempo do Segundo Templo, a mesma cidade que, segundo os Evangelhos, recebia multidões nas festas e onde Jesus esteve tantas vezes. Uma cidade que dependia de água trazida de longe com tanto cuidado lembra a imagem do salmista, que via na água um sinal da presença de Deus entre o seu povo: “Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o lugar santo das moradas do Altíssimo” (Salmos 46:4).
Com informações de The Jerusalem Post e Algemeiner.com.

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