Menor ilha dos Açores apaga as luzes por três semanas para salvar filhotes de cagarro
No Corvo, 450 moradores aceitam noites escuras desde 21 de outubro para que as aves jovens não se percam na luz artificial e consigam voar até o oceano

Desde 21 de outubro, a menor ilha dos Açores vive noites propositalmente escuras. No Corvo, em Portugal, o município desligou a iluminação das ruas e dos prédios públicos por quase três semanas para que os filhotes de cagarro, que deixam os ninhos nesta época do ano, não se percam atraídos pela luz artificial e consigam chegar ao oceano. A informação é da revista britânica Positive News, que destacou a iniciativa em sua seleção de boas notícias de 30 de outubro.
O cagarro (Calonectris borealis) é uma ave marinha que passa quase toda a vida em alto-mar e só vem à terra para se reproduzir, em tocas e fendas de rocha perto da costa. Os filhotes saem do ninho à noite, no primeiro voo rumo ao mar, e, por serem inexperientes, são atraídos e ofuscados pelas luzes das casas e dos postes. Segundo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), muitos acabam batendo em prédios, fios e carros; uma vez no chão, não conseguem levantar voo sozinhos e ficam à mercê de predadores e atropelamentos. A entidade estima que cerca de 1.100 aves marinhas morram todos os anos por causa da poluição luminosa na Macaronésia, região que reúne os arquipélagos dos Açores, da Madeira e das Canárias.
Uma ilha de 450 pessoas e 6 mil casais de aves
O Corvo tem cerca de 450 moradores, reunidos num único povoado, a Vila do Corvo, e abriga aproximadamente 6 mil casais de cagarros, de acordo com a Positive News. O arquipélago dos Açores concentra cerca de 75% da população reprodutora mundial da espécie. São aves longevas, que podem viver até 40 anos, mas criam apenas um filhote por ano, o que torna cada jovem perdido uma perda difícil de repor. Os filhotes deixam os ninhos ao longo de cerca de quatro semanas a partir de meados de outubro.

A preocupação dos corvinos com as aves é antiga. Em 1991, moradores encontraram um grande número de filhotes mortos nas ruas, e em 1995 o Governo dos Açores criou a campanha SOS Cagarro, que todos os anos mobiliza brigadas de voluntários para recolher as aves caídas e devolvê-las ao mar, conforme relatou a imprensa portuguesa. Segundo a campanha, cerca de 30 mil filhotes foram resgatados nos Açores desde 2015, 6 mil deles apenas no Corvo. A SPEA registra apagões da iluminação pública da ilha nos períodos mais críticos desde 2017 e, de acordo com a Positive News, desde 2019 a comunidade apaga as luzes nas noites de saída dos filhotes. Numa sondagem feita pela SPEA com 207 moradores, o apoio ao apagão foi unânime.
Como se salva um cagarro
“Há muitas maneiras de salvar um cagarro, e cada pessoa pode ajudar do seu jeito”, disse Beatriz Martins, da SPEA-Açores, à Positive News. Entre as atitudes citadas por ela estão apagar as luzes externas de casa, levar no carro uma caixa de papelão, luvas e uma toalha para recolher com segurança uma ave encontrada na estrada, avisar as autoridades quando a pessoa não se sentir à vontade para manuseá-la e participar das brigadas de resgate.

O apagão do Corvo é apoiado por projetos europeus de conservação voltados à redução da poluição luminosa, como o LIFE Natura@night e o Interreg EELabs, segundo a SPEA. A ideia se espalhou: na Madeira, a mesma entidade promove um “mega apagão” na noite de 30 de outubro, das 20h às 23h, e a edição de 2026 foi anunciada com a adesão de municípios, hotéis e até de um aeroporto, de acordo com a imprensa portuguesa. O Corvo, porém, continua sendo a única ilha que desliga toda a iluminação pública.
A história tem um elo com o Brasil. Terminada a temporada de reprodução no Atlântico Norte, os cagarros fazem uma longa migração que atravessa o Equador e chega à costa brasileira e uruguaia, onde a espécie é conhecida como cagarra-grande. Os filhotes que conseguirem alçar voo nas noites escuras do Corvo poderão, portanto, cruzar o oceano e passar pelo nosso litoral nos próximos meses.
Há algo de bonito numa comunidade inteira que aceita andar no escuro por três semanas para que criaturas pequenas e frágeis encontrem o caminho do mar. A Bíblia ensina que cuidar dos animais não é detalhe menor na vida de quem teme a Deus: “O justo olha pela vida dos seus animais; porém as entranhas dos ímpios são cruéis” (Provérbios 12:10). No Corvo, o cuidado com a criação virou um gesto coletivo, repetido a cada outono.
Com informações de Positive News e SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.




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