Alunos de funilaria reconstroem carro batido e dão as chaves a veterano nos EUA
Em Minneapolis, estudantes recuperaram um Hyundai doado por uma seguradora para um ex-marinheiro que andava a pé há dois anos para comprar comida

Durante meses, um Hyundai Elantra 2020 com a frente amassada ocupou a oficina de alunos de funilaria e pintura de uma faculdade técnica de Minneapolis, no estado americano de Minnesota. Não era um exercício qualquer de sala de aula: o carro tinha dono certo. Em 23 de setembro, os estudantes do Dunwoody College of Technology entregaram as chaves do veículo, inteiramente reconstruído, a Robert Hanson, veterano da Marinha dos Estados Unidos que estava havia mais de dois anos sem carro próprio. A história, contada pela emissora CBS News Minnesota e divulgada pela entidade que organiza a doação, voltou a circular no fim de outubro e mostra como uma habilidade aprendida na escola pode virar presente para quem precisa.
Hanson serviu como aviador da Marinha entre 1993 e 1997 e deixou as Forças Armadas com baixa honrosa. Segundo o comunicado do National Auto Body Council (NABC), ele enfrenta problemas de saúde desde que saiu da Marinha, tem dificuldade para caminhar longas distâncias e acha o transporte público muito penoso. Mesmo assim, vinha fazendo a pé o caminho até o mercado. Ele foi indicado ao programa por um serviço de atendimento a pessoas sem moradia do condado de Hennepin, ao qual pertence Minneapolis, e por uma organização de apoio a veteranos de Minnesota.
Da batida à oficina da escola
O carro chegou à faculdade por meio do Recycled Rides, programa criado em 2007 pelo NABC, uma associação sem fins lucrativos que reúne empresas do setor de funilaria e reparação de automóveis. A lógica é simples: seguradoras e empresas doam veículos danificados, oficinas e escolas fazem o conserto sem cobrar, e o carro pronto é entregue a uma família ou pessoa indicada por entidades sociais. No caso de Hanson, o Elantra foi doado pela seguradora Allstate depois de uma colisão que danificou boa parte da dianteira.

A recuperação ficou a cargo dos alunos do curso de Funilaria e Pintura Automotiva do Dunwoody, uma faculdade técnica particular e sem fins lucrativos fundada em 1914. A reportagem da CBS cita três deles, Abbie Vera, Ethan Gamm e Myles Root, este último também veterano das Forças Armadas. O comunicado do NABC lista ainda mais de dez empresas da região que contribuíram com peças, serviços e apoio, de oficinas de funilaria a uma concessionária da marca.
Na entrega, o professor Brian Briske, que coordena a área de funilaria e pintura da faculdade, resumiu o sentido do trabalho: “Hoje não estamos só entregando um molho de chaves; estamos entregando uma ferramenta de transformação”. Para os estudantes, a recompensa veio no rosto do novo dono. “Fiquei muito feliz de ver que ele estava feliz por ter um carro praticamente novo, e por termos feito parte disso”, contou Abbie Vera à CBS.
Mais de 3.800 carros entregues
Para Hanson, o carro muda a rotina. Ele disse à emissora que o veículo será uma grande virada, porque vinha andando a pé para conseguir comida. Com o carro, poderá ir a mercados mais baratos, comprar em maior quantidade, chegar às consultas médicas e, nas palavras dele, voltar a sair e aproveitar a vida.
O caso de Minneapolis é um entre milhares. De acordo com o NABC, desde 2007 os membros da associação já doaram mais de 3.850 veículos, avaliados em cerca de 69 milhões de dólares. A CBS informa que cerca de 75% dos carros foram para veteranos e militares da ativa. Só a Allstate, uma das maiores parceiras, já doou quase 400 veículos ao programa. Além de ajudar quem recebe, o modelo dá aos alunos a chance de treinar em um conserto de verdade, com prazo, padrão de qualidade e alguém esperando do outro lado.
A ideia cabe em muitas cidades: uma escola técnica, um bem que seria descartado e uma pessoa que precisa de uma mão. No Brasil, cursos profissionalizantes, oficinas e igrejas também podem se perguntar o que sabem fazer de melhor e quem, perto deles, seria ajudado por isso.
O próximo que carrega o peso junto
Há algo bonito em ver jovens dedicarem meses de trabalho a alguém que nem conheciam, e um veterano, que já serviu ao país, sendo agora servido por outros. É a mesma lógica que o apóstolo Paulo ensinou aos gálatas: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6:2). Às vezes, a carga do próximo é o caminho até o mercado. E quem tem nas mãos uma ferramenta, um ofício ou um tempo livre pode tornar esse caminho bem mais leve.
Com informações de CBS News Minnesota e National Auto Body Council.



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