Tartarugas-gigantes de Aldabra chegam a 180 mil, o maior número já registrado
Estudo nas Seychelles mostra que a espécie, que no século 19 tinha menos de mil animais, vive hoje a maior população já contada

Uma das histórias de recuperação mais bonitas da natureza no Oceano Índico acaba de ganhar um número novo. Segundo um estudo publicado na revista científica Ecology and Evolution, o Atol de Aldabra, nas Seychelles, abriga cerca de 180 mil tartarugas-gigantes, a maior população já registrada para a espécie. A melhor estimativa dos pesquisadores chega a quase 183 mil tartarugas adultas e subadultas.
O resultado chama a atenção porque essas tartarugas já estiveram à beira do desaparecimento. No século 19, a exploração intensa reduziu a população de Aldabra a menos de mil animais. O que se vê hoje é fruto de mais de um século de proteção, de pesquisa e de trabalho paciente, feito longe dos holofotes.
O levantamento foi conduzido pela Fundação das Ilhas Seychelles (SIF, na sigla em inglês), que administra a área, em parceria com a Universidade de Exeter, no Reino Unido. Os resultados foram divulgados pela universidade em 7 de outubro.
Um anel de corais longe de tudo
Aldabra é um atol, ou seja, um anel de ilhas de coral, no Oceano Índico, a leste do continente africano. De acordo com a Universidade de Exeter, é um dos dois únicos lugares do mundo onde tartarugas-gigantes vivem em estado selvagem. O outro é o arquipélago de Galápagos, cuja população é bem menor.
A ilha se tornou reserva natural estrita em 1981 e foi reconhecida como Patrimônio Mundial da Unesco em 1982. O programa de monitoramento de Aldabra é descrito pelos pesquisadores como um dos mais antigos da região, e a recuperação das tartarugas é apontada por eles como um dos maiores casos de sucesso da conservação no Oceano Índico.
Para ter uma ideia do tamanho da população, o número de tartarugas no atol supera o de habitantes de todo o país, segundo o Good News Network, que repercutiu o estudo.
Como contar o que não se vê
Contar tartarugas parece simples, mas não é. Boa parte do atol é coberta por vegetação fechada, e muitos animais ficam escondidos. Para resolver o problema, a equipe analisou cinco anos de contagens, de 2018 a 2022, feitas pelos pesquisadores da SIF, e usou um método estatístico chamado amostragem por distância hierárquica bayesiana. Na prática, a técnica corrige os animais que os observadores deixaram de ver e leva em conta a diferença de visibilidade entre um tipo de terreno e outro.
“Ao modelar o que não vimos, além do que vimos, produzimos a base de referência mais confiável até agora”, explicou a pesquisadora Nancy Bunbury, uma das autoras do estudo.
As maiores concentrações de tartarugas foram encontradas nos campos de gramíneas baixas, apelidados de “gramado das tartarugas”, seguidos pelas áreas abertas e pelo mato aberto e misturado. Já nos arbustos densos, nos manguezais e na vegetação de Pemphis, um arbusto típico da região, os animais foram mais difíceis de enxergar.
O número anterior mais citado era de cerca de 100 mil tartarugas, calculado no fim dos anos 1990. Os próprios pesquisadores, porém, fazem uma ressalva honesta: o novo resultado não quer dizer que a população quase dobrou desde 1999. Como as contagens antigas provavelmente deixaram muitos animais de fora, os números de antes deviam estar abaixo da realidade. Segundo o estudo, a população se manteve relativamente estável durante o período analisado.
O que ainda ameaça as gigantes
A boa notícia não significa que o trabalho acabou. De acordo com a Universidade de Exeter, as mudanças no clima devem trazer secas mais longas e frequentes, que reduzem a sombra e o alimento disponíveis para as tartarugas, e a subida do nível do mar ameaça as partes mais baixas do atol.
Há também os animais invasores. As cabras que viviam soltas no atol devastaram a vegetação, mas foram erradicadas em 2012. Hoje, gatos ferais e ratos-pretos ainda atacam ovos e filhotes. Para os autores, a retirada planejada desses animais pode remover as últimas barreiras ao crescimento da população e ajudar as tartarugas a resistir às pressões do clima.
A diretora-executiva da SIF, Frauke Fleischer-Dogley, resumiu o resultado como uma “prova do que o compromisso de longo prazo com a conservação pode alcançar”. Para o pesquisador Dave Hudson, da Universidade de Exeter, os números servem como ponto de partida para que os responsáveis pela área acompanhem as mudanças futuras e possam agir cedo.
Cuidar do que foi criado
De menos de mil para mais de 180 mil. Por trás desse salto há gente que, por gerações, decidiu proteger um pedaço da criação que não lhe pertencia e do qual dificilmente tiraria algum proveito. É um lembrete de que cuidar da natureza também é uma forma de reconhecer a sabedoria de quem a fez. Como diz o salmista: “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmos 104:24).
Com informações de Good News Network e Universidade de Exeter.

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