Bugio de Mato Grosso é espécie nova, a 1ª do gênero desde 1940, e vive em Alta Floresta
Estudo genômico na Communications Biology descreve o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso, até agora confundido com o bugio do Purus, e pede avaliação urgente

Um macaco que ronca alto nas matas do norte de Mato Grosso acaba de ganhar nome próprio na ciência. O bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis) foi descrito como espécie nova em um estudo publicado em 30 de outubro na revista Communications Biology, do grupo Nature. Até então, esses animais eram tratados como parte do bugio-vermelho-do-Purus (Alouatta puruensis), espécie documentada em 1940. E, segundo a Nativa News, a novidade pode ser vista em vida livre em Alta Floresta, no extremo norte do estado.
A descrição é um marco. De acordo com o CIBIO-BIOPOLIS, centro de pesquisa da Universidade do Porto, em Portugal, que participou do trabalho, é a primeira vez desde 1940 que uma espécie nova de bugio (gênero Alouatta) é formalmente descrita. E não foi só uma: o mesmo artigo apresenta o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), da região dos tepuis, no extremo norte da Amazônia.
O que o DNA revelou
O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Salford, no Reino Unido, em parceria com o CIBIO-BIOPOLIS e com instituições brasileiras, entre elas o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade Federal de Mato Grosso. A primeira autora é a bióloga Romina Batista, do Inpa e de Salford. A equipe sequenciou o genoma de 11 das 13 espécies de bugio reconhecidas até então e comparou os resultados com a anatomia de numerosos exemplares guardados em museus, inclusive na coleção do Inpa, em Manaus, além de dados novos de campo.

Foi essa combinação de genética e anatomia que separou o bugio de Mato Grosso do seu parente do Purus. Os pesquisadores concluíram que a maior parte da diversidade dos bugios da Amazônia surgiu no último milhão de anos, e que os grandes rios da região, como o Amazonas, o Branco e o Xingu, funcionaram como barreiras: populações que ficaram em margens opostas deixaram de trocar genes e, com o tempo, viraram espécies diferentes. Mosaicos de floresta e savana também ajudaram a moldar essa diversidade, e as reconstruções da equipe apontam que o gênero teve origem do outro lado dos Andes.
Onde ele vive e por que preocupa
O bugio-vermelho-do-Mato-Grosso ocorre no sul da Amazônia, entre os rios Madeira e Teles Pires, com o limite sul na transição entre a floresta e o Cerrado, segundo a Nativa News. É uma faixa que coincide com o chamado “arco do desmatamento”, e por isso os autores pedem uma avaliação urgente do estado de conservação: na análise deles, a espécie pode preencher os critérios de “Criticamente em Perigo”, por causa da perda e da fragmentação do habitat. O artigo lembra que 11 dos 16 táxons de bugio reconhecidos já constam como ameaçados na Lista Vermelha da IUCN, pressionados por desmatamento, fragmentação e caça.
Em Alta Floresta, a presença da nova espécie foi registrada na Fazenda Anacã, que mantém uma Reserva Particular do Patrimônio Natural reconhecida pelo ICMBio em maio de 2024. As fotos dos animais, feitas pela fotógrafa Kacau Oliveira e divulgadas pela fazenda, mostram o bugio em plena mata, e o reconhecimento científico reforça o valor das áreas preservadas da região, que ainda guarda espécies pouco conhecidas.

O macaco mais barulhento da mata
Quem já acordou de madrugada no meio do mato conhece o som: um ronco grave, que parece vento forte e pode ser ouvido a quilômetros de distância. Os bugios estão entre os animais terrestres mais barulhentos do planeta, e usam a vocalização para marcar território e manter o grupo unido, segundo o CIBIO-BIOPOLIS. São primatas grandes, de hábito arborícola, e os da linhagem vermelha têm a pelagem ruiva que dá nome ao grupo. Mato Grosso abriga ainda outras espécies de bugio, como o bugio-preto, comum no Pantanal.
Um detalhe nos agradecimentos do artigo diz muito sobre como se faz ciência na Amazônia. Os autores agradecem ao povo Yanomami e às comunidades ribeirinhas da bacia do Rio Negro pelo apoio nas expedições, e também aos missionários católicos e evangélicos que ajudaram a equipe em seus postos remotos, além do Exército, da Funai e do ICMBio, pelas autorizações e pela logística.
Há algo de muito bíblico em descobrir que a criação é ainda maior do que o nosso catálogo. Um animal que sempre esteve ali, roncando ao amanhecer no norte de Mato Grosso, só agora recebeu um nome. “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmos 104:24).
Com informações de Nativa News e CIBIO-BIOPOLIS (Universidade do Porto).




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