Boas notícias17/10/2026

Curativo líquido criado na Unicamp seca em 45 segundos e pode acelerar a cicatrização

Película transparente dispensa gaze e esparadrapo, é absorvida pelo corpo e, em testes pré-clínicos, reduziu à metade o tempo de recuperação de feridas

Curativo líquido criado na Unicamp seca em 45 segundos e pode acelerar a cicatrização
Foto: reprodução / Metrópoles

Imagine cuidar de um machucado sem gaze, sem esparadrapo e sem a dor de arrancar o curativo no dia seguinte. É essa a proposta de uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): um curativo em forma de líquido, aplicado diretamente sobre a ferida, que em até 45 segundos vira uma película transparente e protetora. Segundo os pesquisadores, o produto pode reduzir em até 50% o tempo de recuperação de um ferimento.

A pesquisa foi coordenada pelo professor Rubens Maciel Filho, com a participação de André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon. As informações foram divulgadas pela Agência SP, do governo paulista, e pelo portal Metrópoles, em 16 de outubro. O desenvolvimento teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Como funciona a película

O curativo é feito com um polímero conhecido por sua biocompatibilidade, ou seja, que convive bem com os tecidos do corpo, dissolvido em solventes de origem renovável e atóxicos para o ser humano. Ao secar sobre a pele, a mistura forma um filme impermeável à água, que funciona como barreira contra agentes infecciosos e, ao mesmo tempo, como uma estrutura de suporte que favorece a regeneração das células.

Uma das vantagens mais práticas é que ele não precisa ser trocado nem removido. O próprio organismo metaboliza o polímero à medida que a ferida se fecha. Por ser transparente, permite acompanhar a cicatrização sem tirar nada do lugar. Também se adapta ao formato do machucado, sem necessidade de recortes, e pode ser usado em dobras e articulações, como cotovelos e joelhos, sem descolar nem romper. Como é impermeável, a pessoa pode tomar banho sem cobrir a região.

“Estamos formando um filme inteligente, no sentido de que ele interage muito bem com a pele”, explicou o coordenador Rubens Maciel Filho em entrevista à Agência SP. A pesquisadora Ana Flávia Pattaro destacou que o grande diferencial do trabalho, em escala mundial, foi encontrar o sistema de solventes adequado. Já Maria Ingrid Schiavon lembrou que, por dispensar corte, troca e retirada, o curativo ajuda a diminuir a contaminação cruzada e a quantidade de resíduos biológicos.

O que já foi testado e o que falta

Os resultados animadores vêm de testes pré-clínicos in vivo, feitos em colaboração com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Neles, o tempo de cicatrização caiu aproximadamente pela metade em comparação com curativos tradicionais. A equipe também concluiu com sucesso os testes de escalonamento, que mostram se o processo funciona fora da bancada do laboratório, em volume de produção. Segundo os pesquisadores, isso foi possível com equipamentos e processos próprios, sem grandes investimentos.

É importante dizer com clareza: o produto ainda não está à venda. Resultados pré-clínicos são um passo promissor, mas não substituem a avaliação em pessoas. A tecnologia foi licenciada com exclusividade para a Dermbio Biotech, uma empresa nascida dentro da Unicamp, fundada por um professor, dois pesquisadores e uma ex-aluna da universidade. É ela que trabalha agora nas etapas exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e na estruturação comercial. O licenciamento teve apoio da Inova Unicamp, a agência de inovação da universidade.

Os pesquisadores enxergam outros caminhos para a mesma base: dermocosméticos, recobrimento de implantes e próteses e até a liberação controlada de antibióticos e anti-inflamatórios. Há ainda potencial para o tratamento de feridas em animais, já que o produto foi testado neles com a mesma forma de aplicação usada em humanos.

Ciência a serviço do próximo

Por trás de uma película que seca em segundos estão anos de estudo, financiamento público e gente disposta a pensar em quem sofre com uma ferida que demora a fechar. Quando a ciência se dedica a aliviar a dor do outro, ela lembra a atitude do bom samaritano, que não passou de largo diante de quem estava ferido: “e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele” (Lucas 10:34). Cuidar das feridas do próximo continua sendo uma forma bonita de amor, seja à beira da estrada, seja num laboratório.

Com informações de Metrópoles e Poder360 (Agência SP).

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