Boas notícias16/10/2026

Florestas que renascem sozinhas expulsam aos poucos as árvores invasoras, mostra estudo

Pesquisa com mais de 1.500 áreas nas Américas indica que, com o tempo, as espécies nativas voltam a dominar e as estrangeiras perdem espaço

Florestas que renascem sozinhas expulsam aos poucos as árvores invasoras, mostra estudo
Foto: reprodução / Agência FAPESP

Quando uma pastagem ou uma lavoura é abandonada nos trópicos, a mata costuma voltar por conta própria. Nos primeiros anos, porém, quem chega na frente nem sempre é a árvore nativa: espécies trazidas de fora, algumas delas invasoras, aproveitam o terreno aberto e se espalham. A boa notícia, segundo um estudo internacional com participação de pesquisadores brasileiros, é que esse domínio não dura. À medida que a floresta cresce, as nativas recuperam o lugar e as estrangeiras vão diminuindo.

O trabalho foi publicado na revista científica Nature Plants e reuniu pesquisadores de cerca de 60 instituições, de acordo com a Agência FAPESP, que divulgou os resultados em 16 de outubro. A primeira autora é a bióloga Angelica Faria de Resende, que fez o pós-doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, em Piracicaba (SP), com bolsa da FAPESP e estágio na Universidade de Stirling, na Escócia. Para a pesquisadora, a conclusão aponta para o que ela chamou de uma solução baseada na própria natureza para controlar as espécies não nativas.

Um retrato de dez países

A equipe analisou dados de 1.561 áreas de floresta secundária, nome dado à mata que volta a crescer depois de ter sido derrubada, em dez países da região neotropical: Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guiana Francesa, México, Panamá, Peru, Porto Rico e Venezuela. Acompanhar uma mesma área por décadas seria demorado demais, por isso os cientistas usaram outro caminho: compararam, dentro de uma mesma região, terrenos de idades diferentes, desde os abandonados há pouco tempo até as matas já maduras. Assim foi possível montar a sequência do que acontece ao longo dos anos.

O resultado mostra que as árvores não nativas são mais comuns justamente nas duas primeiras décadas de regeneração. Nas florestas úmidas, elas chegaram a representar 28% dos troncos e 22% das espécies nesse período inicial. Nas florestas secas, os dois índices ficaram em 9%. Espécies de fora apareceram em 41% das parcelas estudadas nas regiões úmidas e em 18% nas secas.

Entre as 3.735 espécies registradas, os pesquisadores identificaram 131 não nativas que não se comportam como invasoras, 14 potencialmente invasoras e 11 invasoras de fato. A diferença importa. O estudo cita o exemplo do pinheiro Pinus elliottii, que se espalha sozinho e é considerado invasor, e o do eucalipto, que também veio de fora, mas não costuma avançar sem ser plantado. No Brasil, uma das espécies que chamaram a atenção foi a uva-japonesa, também conhecida como cajueiro-japonês (Hovenia dulcis), que em algumas áreas passou de um quarto dos troncos amostrados.

Por que as nativas vencem

A explicação está na sombra. Muitas das espécies estrangeiras são, nas palavras da pesquisadora, oportunistas: crescem rápido quando o sol bate direto no chão. Conforme as árvores nativas sobem e fecham a copa, o ambiente fica mais escuro e úmido, e as recém-chegadas perdem a vantagem. O levantamento também mostrou que a presença dessas espécies é menor quando há mais floresta em volta, mais chuva e menos proximidade com áreas agrícolas, e que a variedade de espécies de fora tende a ser maior em regiões com Índice de Desenvolvimento Humano mais alto.

Isso não significa que as invasoras sejam inofensivas. Segundo Resende, elas podem alterar as cadeias alimentares e a diversidade da floresta. Por isso, o recado dos cientistas é que a regeneração natural funciona melhor quando há mata nativa por perto para fornecer sementes e quando a área é protegida.

Na Amazônia, poucas espécies fazem muito

Outro estudo recente reforça a capacidade de recuperação das florestas. Pesquisadores coordenados por Fernando Elias, do Museu Paraense Emílio Goeldi, examinaram 102 áreas em regeneração natural em quatro regiões do Pará: Bragantina, Marabá, Paragominas e Santarém. O trabalho, publicado na revista Global Change Biology e noticiado pela Mongabay Brasil, mostrou que um grupo de 15 a 25 espécies, como a embaúba, a tatapiririca e o ingá-vermelho, responde por mais da metade das árvores e do carbono armazenado nessas matas.

Segundo Elias, a Amazônia brasileira tem mais de 140 mil quilômetros quadrados de florestas secundárias, muitas delas em antigas áreas de pasto, e boa parte pode se recuperar sem que seja preciso plantar uma única semente, desde que haja monitoramento contra fogo, gado e invasões. Conhecer as espécies que fazem a mata voltar pode ajudar o Brasil a cumprir a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.

Há algo de bonito em ver uma terra cansada voltar a ser floresta quase sem a mão humana, apenas com tempo, chuva e sementes trazidas pelo vento e pelos animais. A criação carrega a marca de quem a fez, e cuidar dela é parte do chamado que recebemos. Como diz o salmista: “Saciam-se as árvores do Senhor, os cedros do Líbano que ele plantou” (Salmos 104:16).

Com informações de Agência FAPESP e Mongabay Brasil.

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