Curiosidades06/11/2026

Gatos também podem ser tímidos como bebês, mostra estudo japonês com 310 felinos

Pesquisa publicada na revista PLOS One separa o medo da timidez e descreve quatro perfis de personalidade felina, do muito sociável ao tímido que quer se aproximar

Gatos também podem ser tímidos como bebês, mostra estudo japonês com 310 felinos
Foto: Maria Isabel Oliveira Gatos e bebês humanos têm mais em comu / O Globo

O gato que some debaixo da cama quando a visita chega pode não ser medroso: pode ser apenas tímido. A diferença, que parece miúda, é o centro de um estudo publicado em 4 de novembro na revista científica PLOS One por pesquisadores japoneses da Universidade de Quioto e da Universidade Sophia, em Tóquio. Depois de ouvir os tutores de 310 gatos domésticos, eles encontraram um grupo de bichos que sente medo do desconhecido e, ao mesmo tempo, quer chegar perto dele, uma mistura muito parecida com a timidez observada em bebês humanos.

A conclusão interessa a quem divide a casa com um gato, mas também diz algo maior: traços de personalidade complexos, que até pouco tempo pareciam exclusivos dos seres humanos, podem existir em outros animais.

Medo não é o mesmo que timidez

Na psicologia humana, a timidez é descrita como um conflito entre aproximação e recuo. Um bebê tímido quer interagir com o adulto desconhecido, mas sente ansiedade ao fazê-lo; ele hesita, observa e, aos poucos, se aproxima. Já o medo puro só afasta. Segundo os autores do estudo, as pesquisas com animais costumavam misturar as duas coisas, medindo o comportamento numa escala simples que ia do medroso ao audacioso.

Para separar os dois traços, a equipe liderada por Madoka Hattori, da Universidade de Quioto, adaptou aos gatos dois questionários usados para avaliar o temperamento de crianças pequenas e pediu que os tutores respondessem on-line. Foram três levantamentos em sequência: o primeiro com 82 gatos de ambos os sexos, o segundo com 114 machos e o terceiro com 114 machos nascidos na rua, grupo em que o padrão chamou mais atenção nas etapas anteriores. Cada animal recebeu notas de timidez, de medo e de tendência a se aproximar de pessoas e brinquedos novos.

O resultado geral confirmou o esperado: na maioria dos gatos, timidez e medo andam juntos. A hipótese principal dos pesquisadores, de uma relação mais elaborada entre timidez e aproximação, não se confirmou estatisticamente. Mas uma análise posterior, que agrupou os gatos por semelhança de comportamento, revelou um subgrupo que não cabia na escala simples.

Quatro perfis de gato

De acordo com o artigo, essa análise sugeriu quatro perfis entre os machos nascidos na rua. O “muito sociável” tem pouco medo e alta tendência de aproximação: vai direto ao encontro da visita ou do objeto novo. O “sociável”, o mais comum, tem pouco medo e aproximação moderada, amigável mas com certa independência. O “medroso” tem muito medo e quase nenhuma aproximação: se esconde e só volta quando a casa fica em silêncio.

Filhotes espiam de dentro de uma bacia: curiosidade e receio ao mesmo tempo
Filhotes espiam de dentro de uma bacia: curiosidade e receio ao mesmo tempo Foto: Nilay.pati / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O quarto perfil é a novidade. O gato “tímido” tem muito medo e, mesmo assim, alta tendência de aproximação. Diante de um estranho, ele recua num primeiro instante, mas fica observando à distância e volta aos poucos, dando pequenos passos. Os pesquisadores descreveram esse tipo como uma “timidez semelhante à de bebês humanos” e observaram que ele foi mais frequente em machos e em gatos que nasceram na rua. Segundo a reportagem do jornal O Globo sobre o estudo, o tempo de convivência com humanos não alterou de forma significativa esse comportamento, o que sugere um traço de temperamento estável, e não um receio passageiro de quem acabou de ser adotado.

Os autores têm o cuidado de não exagerar: os quatro perfis são candidatos surgidos de uma análise exploratória, baseada no relato dos donos e não em testes diretos de comportamento, e precisam ser confirmados por novas pesquisas. Ainda assim, eles consideram o achado um sinal de que o temperamento dos gatos é mais rico do que a velha divisão entre “amigável” e “arisco”.

O que muda para quem tem gato

A equipe reúne alguns dos nomes mais conhecidos da pesquisa sobre felinos. Atsuko Saito, da Universidade Sophia, ficou famosa ao demonstrar que os gatos reconhecem o próprio nome, mesmo quando fingem que não ouviram. Hattori explica, de acordo com O Globo, que os gatos foram escolhidos justamente porque seu comportamento é bem menos compreendido que o dos cães, domesticados há muito mais tempo e moldados pela convivência humana. Os gatos, que vivem com as pessoas há cerca de 10 mil anos, podem ter preservado traços originais de temperamento.

Na prática, a lição é de paciência. Um gato tímido não é um gato que rejeita a família: é um gato que quer se aproximar, mas precisa fazer isso no próprio ritmo. Forçar o contato ou pegá-lo no colo à força tende a reforçar o medo; deixar que ele venha, com brinquedos e estímulos positivos, ajuda a vencer a ansiedade natural. Para abrigos, saber distinguir o medroso do tímido pode mudar a forma de socializar um animal antes da adoção. “Em vez de simplesmente rotular os gatos como amigáveis ou tímidos, esperamos que nossa pesquisa incentive os tutores a observar e entender melhor o comportamento de cada gato”, escreveram os autores no comunicado da PLOS One.

Quem já conviveu com mais de um gato sabe que não existem dois iguais. A ciência agora começa a medir o que os donos sempre perceberam: cada bicho tem um jeito próprio de encarar o mundo. É um lembrete de que a criação é feita de variedade, e não de cópias, e de que até o menor dos temperamentos foi pensado com cuidado. “Ó Senhor, quão multiformes são as tuas obras! Todas elas as fizeste com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Salmos 104:24).

Com informações de O Globo e PLOS One.

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