Curiosidades14/10/2026

James Webb flagra aglomerado de galáxias que parece ter amadurecido cedo demais

O XLSSC 122, a 10,4 bilhões de anos-luz, já tinha um núcleo muito concentrado numa época em que estruturas desse porte mal começavam a se formar

James Webb flagra aglomerado de galáxias que parece ter amadurecido cedo demais
Foto: NASA, ESA, CSA; Kyle Finner (Caltech/IPAC); Processamento de imagem: Robert Hurt / Exame

Olhar para muito longe no espaço é também olhar para muito longe no tempo. A luz do aglomerado de galáxias XLSSC 122 viajou cerca de 10,4 bilhões de anos-luz até chegar ao Telescópio Espacial James Webb, e o que ela mostra intrigou os astrônomos: uma estrutura gigantesca que já parecia madura numa fase do Universo em que, pelos modelos, ela ainda deveria estar engatinhando.

Os resultados vêm de três estudos liderados por pesquisadores do IPAC, o centro de ciência e dados do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) dedicado à astrofísica e à ciência planetária, nos Estados Unidos. Os trabalhos foram publicados na revista científica The Astrophysical Journal Letters e apresentados em 17 de junho de 2026, durante o 248º encontro da Sociedade Astronômica Americana.

Um gigante no meio-dia cósmico

Aglomerados de galáxias são as maiores estruturas do Universo mantidas unidas pela própria gravidade. Reúnem centenas ou milhares de galáxias, gás muito quente e uma enorme quantidade de matéria escura. A ideia mais aceita é que eles crescem aos poucos, à medida que grupos menores vão se juntando ao longo de bilhões de anos.

O XLSSC 122 pertence a um período que os astrônomos chamam de meio-dia cósmico, há cerca de 10 bilhões de anos. Foi a época de formação de estrelas mais intensa da história do Universo, quando as galáxias produziam estrelas num ritmo até cem vezes maior que o atual. Era também o momento em que os aglomerados começavam a se tornar comuns.

O que surpreendeu a equipe foi a quantidade de massa acumulada no centro do XLSSC 122. Segundo o cientista Kyle Finner, do IPAC, autor principal do primeiro estudo, essa concentração não bate com o que prevê o modelo cosmológico usado pelos pesquisadores. “O XLSSC 122 é um dos primeiros aglomerados que conhecemos a se formar no universo”, afirmou ele, de acordo com o site SoCientífica.

O aglomerado não é uma descoberta nova. Ele foi identificado em 2014 por um levantamento em raios X feito pelo observatório espacial XMM-Newton, da Agência Espacial Europeia. Mais tarde, observações do Telescópio Espacial Hubble ajudaram a medir sua distância e já sugeriam que ele parecia desenvolvido demais para a idade. Faltava, porém, uma ferramenta capaz de “pesar” sua massa com precisão, e foi aí que o Webb fez diferença.

Uma lente natural no céu

Quando um objeto com muita massa fica entre a Terra e uma fonte de luz mais distante, sua gravidade curva a luz que passa ao redor, como uma lente de aumento natural. É o fenômeno da lente gravitacional. Atrás do XLSSC 122 há galáxias ainda mais distantes, e a massa do aglomerado deforma a luz delas, criando arcos que aparecem nas imagens do Webb.

Com isso, o XLSSC 122 passou a ser o aglomerado de galáxias mais distante já conhecido a apresentar o chamado efeito de lente forte. Medindo essas distorções, os cientistas conseguem calcular onde a massa está concentrada, inclusive a parte que não pode ser vista. Essa parte invisível é a matéria escura, que não emite luz e só é percebida pelos efeitos de sua gravidade. Estima-se que ela seja cerca de cinco vezes mais abundante que a matéria comum, aquela que forma estrelas, planetas e tudo o que conhecemos. “A lente forte é uma maneira de medir a matéria escura sem realmente ver a matéria escura”, explicou Finner.

No segundo estudo, a equipe usou a lente gravitacional fraca, que muda só um pouquinho o formato das galáxias ao fundo e por isso precisa ser medida com estatística. As duas técnicas se completam: a forte mede o núcleo, a fraca mostra como a massa se espalha pelas bordas. Somando esses dados a observações em raios X e em ondas de rádio, os pesquisadores concluíram que o XLSSC 122, apesar de parecer maduro, ainda está crescendo: suas galáxias continuam se aproximando e se fundindo.

O brilho das estrelas sem casa

O terceiro estudo trouxe outra novidade. O Webb captou um brilho muito fraco entre as galáxias, chamado luz intra-aglomerado, produzido por estrelas que foram arrancadas de suas galáxias de origem durante encontros e colisões e ficaram vagando pelo aglomerado. Segundo os pesquisadores, é a detecção mais antiga já registrada desse tipo de luz.

Perto do centro do aglomerado, a distribuição desse brilho acompanha o desenho da matéria escura calculado pelas lentes gravitacionais. Se o mesmo padrão aparecer em outros aglomerados, essa luz discreta pode virar uma nova forma de mapear a matéria escura em diferentes épocas do Universo.

Os próprios cientistas fazem questão de dizer que o resultado ainda não derruba as teorias atuais. O próximo passo é procurar outros aglomerados igualmente antigos para descobrir se o XLSSC 122 é uma exceção ou o primeiro sinal de que as grandes estruturas do cosmos se formaram mais depressa do que se imaginava.

Diante de números como esses, bilhões de anos-luz, milhares de galáxias, uma matéria que ninguém vê mas cuja força molda tudo ao redor, é difícil não sentir a pequenez humana e, ao mesmo tempo, a grandeza de quem criou tudo isso. Cada nova imagem do Webb ecoa o que o salmista já cantava ao olhar para o céu: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).

Com informações de Exame e SoCientífica.

Deixe sua palavra

Comentários com respeito e amor edificam a todos.

Reportar um erro

Viu algo errado nesta página? Conte para a equipe da Rádio Aleluia. Obrigado por ajudar!

O que aconteceu?